A cena vivida em Luís Gomes durante a visita do presidente Lula ao Rio Grande do Norte mostrou, mais uma vez, como o PT costuma lidar com seus aliados quando o assunto é dividir protagonismo.
Em pleno discurso da ministra Miriam Belchior, Lula interrompeu a cerimônia para dizer em alto e bom som que um pré-candidato ao Senado havia ficado fora do palanque. Diante das câmeras, o presidente não titubeou: “Está aqui o companheiro que é candidato ao Senado e estava lá fora porque alguém esqueceu dele. Manda ele subir aqui”. Só depois de ver o pedetista no palco retomou a solenidade.
Aos 80 anos, o presidente parece não ter mais filtro e não se importou em transformar um ato que deveria ser administrativo, bancado com dinheiro público, em um comício no qual chamou ao palanque (sic), um candidato a senador.
Lula aguardou a chegada do pedetista antes de retomar a cerimônia. Pouco depois, voltou a comentar o episódio durante uma conversa com os deputados federais Natália Bonavides e Fernando Mineiro, ambos do PT, demonstrando incômodo com o fato de Rafael Motta não estar entre as autoridades que acompanhavam o evento.
A versão oficial fala em falha do cerimonial. Pode até ter sido. Mas nos bastidores, a exclusão do pré-candidato do PDT está sendo tratado como um veto a subida dele ao palanque para garantir todos os holofotes a dupla petista Cadu e Samanda, em um momento em que as pesquisas apontam Mota à frente de Samanda.
A cena, aliás, não é inédita.
Em 2002, Lula enfrentou situação parecida no Rio Grande do Norte. Naquele momento, o PT local ainda enxergava Wilma de Faria como adversária histórica. Fátima Bezerra havia disputado a Prefeitura de Natal contra ela em 1996 e novamente em 2000. O partido construiu sua identidade política fazendo oposição à então prefeita de Natal e, no primeiro turno das eleições estaduais, insistiu em candidatura própria ao Governo com o médico Ruy Pereira.
Só que a política nacional mudou o roteiro. Com Lula no segundo turno da disputa presidencial contra José Serra, a direção nacional do PT decidiu apoiar Wilma de Faria na eleição estadual contra Fernando Freire. Era uma aliança considerada estratégica dentro da diretriz do PT nacional costurada pelo presidente do partido à época, José Dirceu, de se aliar com o PSB, partido da então prefeita, para ampliar o palanque de Lula nos Estados. O problema é que o PT potiguar não queria engolir aquela decisão.
Lula, que tentava sua primeira vitória eleitoral na disputa pela Presidência, chegou em Natal e saiu de um hotel na Via Costeira para o comício na área externa do antigo Machadão num carro com Wilma, o então prefeito Carlos Eduardo, e o então coordenador da campanha Antonio Palloci.
Nos bastidores do grande comício realizado na área externa do antigo Machadão, a tensão foi enorme. Lideranças como Fátima Bezerra e Hugo Manso resistiam à ideia de dividir o palanque com Wilma e ainda mais com aliados de Wilma com os representantes do PFL Beto Rosado e Rosalba Ciarlini. O incômodo era evidente e o PT potiguar, inclusive Fátima que já tinha sido eleita deputada federal, queria impedir Wilma de falar no comício de Lula. Coube ao então coordenador da campanha presidencial, Antonio Palocci, acabar com a discussão. Foi direto: Wilma era aliada de Lula, falaria no comício e ponto final. Quem não concordasse poderia deixar o palanque. O PT recuou. Falaram no comício Carlos Eduardo, Wilma e Mineiro em nome do partido já que Fátima não aceitou a ideia. Lula encerrou o ato.
Vinte e quatro anos depois, a história parece ter voltado ao mesmo lugar.
A diferença é que, desta vez, não foi um dirigente nacional quem precisou enquadrar os petistas. Foi o próprio presidente da República.
Se Rafael Motta ficou fora do palco por um simples erro de protocolo ou por excesso de zelo de quem queria concentrar os holofotes na chapa petista, talvez nunca se saiba.
E talvez aí esteja uma das maiores dificuldades que o PT enfrenta no parlamento e na formação de alianças eleitorais por não aceitar aliados quando eles deixam de ser coadjuvantes e passam a disputar espaço político dentro da própria coligação.