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A manipulação da opinião pública por influenciadores pagos

A Folha de São Paulo trouxe uma reportagem sobre o banco Banco Master e a tentativa de manipulação da opinião pública com objetivo de encobrir o crime cometido contra os recursos públicos que é uma verdadeira aula de como funcionam as “redes” formadas por pessoas contratadas para influenciar as pessoas, inclusive nas eleições deste ano. Vale a pena ver o que diz a reportagem e, quem conhece, ver o que está acontecendo na campanha eleitoral deste ano.

Segundo a reportage, os ataques coordenados contra o Banco Central do Brasil e o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução da autarquia, Renato Gomes, seguiram uma estratégia estruturada dentro do chamado “Projeto DV”, uma operação de gestão de crise atribuída ao empresário Daniel Vorcaro.

De acordo com os documentos obtidos pela reportagem, o projeto previa contratação de influenciadores digitais, páginas de notícias e perfis de grande alcance nas redes sociais para produzir conteúdo direcionado contra o Banco Central e especialmente contra Renato Gomes, que participou da área técnica responsável pela recomendação de veto à compra do Master pelo BRB.

Os contratos teriam sido operacionalizados pela agência Mithi, comandada pelo publicitário Thiago Miranda. Os valores previstos chegariam a R$ 8 milhões. Parte dos pagamentos, segundo a investigação, foi interrompida após a abertura das apurações da Polícia Federal.

A reportagem descreve um modelo profissionalizado de influência digital, com definição de linguagem, tom editorial, títulos, roteiros de vídeos e até orientação visual para as publicações. Cada perfil recebia um direcionamento específico de acordo com o público que atingia. Para páginas voltadas ao mercado financeiro, por exemplo, a orientação era usar um discurso institucional, liberal e técnico. Já perfis populares deveriam trabalhar mensagens mais simples e de forte apelo emocional.

Entre os nomes citados estão o portal GPS Brasília, o jornalista Luiz Bacci, o perfil Not Journal, além de influenciadores como Charles Costa, Cardoso Mundo, Marcelo Rennó e Alfinetei. Alguns confirmaram relação comercial com a agência, embora neguem participação em campanhas coordenadas ou divulgação de informações falsas.

Os documentos revelam ainda cláusulas de confidencialidade, pagamentos mensais elevados e exigências de quantidade mínima de postagens. Em alguns casos, os conteúdos publicados repetiam quase literalmente os títulos e linhas sugeridas nos materiais internos do projeto.

O caso expõe um mecanismo que ultrapassa a publicidade tradicional e se aproxima de operações de engenharia de percepção pública. A lógica não é apenas divulgar uma versão dos fatos, mas criar sensação de consenso artificial nas redes sociais, com múltiplos perfis publicando conteúdos semelhantes ao mesmo tempo, dando aparência de opinião espontânea e orgânica.

A reportagem também mostra como parte desse ecossistema mistura entretenimento, política, notícias e opinião em um mesmo ambiente digital, dificultando para o público identificar onde termina publicidade, onde começa propaganda e qual conteúdo possui efetiva apuração jornalística.

Em meio ao avanço das investigações, o episódio acabou se transformando em um retrato de um fenômeno maior que vem marcando o debate público brasileiro nos últimos anos, especialmente em períodos eleitorais, quando estruturas digitais organizadas passam a atuar para construir narrativas, desgastar adversários, blindar aliados e influenciar a percepção popular em escala industrial.


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