A Igreja estava cheia. Um calor de rachar o asfalto, e os fiéis, esses personagens de uma humildade franciscana ou de uma alienação absoluta, permaneciam ali, de pé, repetindo fórmulas com a convicção de quem lê o rótulo de um vidro de biotônico.
A senhora ao meu lado, cara de quem não perde uma missa, beata dos tempos modernos, celular no banco ao lado dela, qualquer oportunidade, incluindo a homilia, dava uma checada no Instagram e no Whatsapp, enquanto respondia às deixas do padre como quem carimbava alvarás num guichê de prefeitura, quando existiam carimbos e guichês.
Quando no altar, o padre, num transporte lírico, convocava as Virtudes celestes e as Potestades angélicas. Ela respondeu com um "Santo, Santo, Santo" automático, rítmico, quase digestivo.
Eu olhava para ela e pensava: "Meu Deus, ela não sabe!".
Aliás nem ela, nem quase ninguém ali. Se soubessem, cairiam de joelhos, fulminados pelo susto. Porque as Potestades não são esses anjinhos de gesso com bochechas de querubim de farmácia. Não! São a polícia de choque do Cosmos. São os generais do invisível, os guardiões que seguram as rédeas do caos para que o sol não despenque sobre nossas cabeças enquanto discutimos o preço da alcatra.
E, ao lado delas, as Virtudes. Ah, as Virtudes! A beata deve achar que "virtude" é apenas não falar mal da vizinha (no que ela falha miseravelmente). Ela não desconfia que, na teologia oficial, as Virtudes são as operárias do sobrenatural, as responsáveis por suspender as leis da física e operar o milagre. São elas que trazem o "espanto" para a terra.
Tenho quase certeza que a maioria dos fiéis ignora que essa linguagem tem raízes bíblicas e judaicas antigas, com a sistematização em ordens angélicas, como costuma aparecer na tradição cristã, desenvolvida depois. É algo dos tempos em que os profetas tentavam organizar o céu à imagem das cortes imperiais, com generais, ministros e sentinelas. Depois, o Catolicismo pegou esse exército invisível, deu-lhe nomes latinos e o transformou na maior estrutura administrativa da eternidade.
Para ela, "Virtudes e Potestades" são apenas palavras sonoras, vogais que preenchem o silêncio entre o Pai Nosso e a fila da comunhão. O homem moderno, esse idiota da objetividade, perdeu o medo do sagrado. Vai a Igreja para cumprir um ritual, se sentir perdoado, e seguir adiante.
Mal sabem que ali, naquele átimo de segundo em que o Prefácio explode em "alegria pascal", o céu se abre. De um lado, as Virtudes garantindo que a luz ainda seja luz; do outro, as Potestades vigiando as fronteiras do abismo com espadas desembainhadas.
E o que faz o cristão de domingo? Olha o celular.
Ele não percebe que está sendo escoltado pela guarda pretoriana do Altíssimo. Ele murmura o rito como quem confessa um pecado venial ao barbeiro. Falta-nos o espanto. Se o padre dissesse que havia um oficial de justiça na porta, o fiel tremia. Mas como são apenas os coros angélicos proclamando a glória, ele boceja.
O sujeito olha para o altar e vê vinho e pão; não vê o embate cósmico, não vê os Serafins que ardem em fogo eterno e os Querubins que guardam o conhecimento absoluto, nem tampouco os Tronos que sustentam a própria justiça de Deus.
Ainda há as Dominações, que governam os destinos, e os Principados, que cuidam das nações — talvez ocupados demais para dar jeito no nosso Brasil. Por fim, os Arcanjos e os Anjos, os estafetas do céu que descem ao asfalto para tentar falar com gente que só se preocupa com as notificações do celular.
No final, a missa acaba. O fiel sai, cumprimenta o vizinho, consulta mais uma vez o celular, segue para o almoço de domingo e seu tradicional frango assado. Mal sabe ele que, durante uma hora, esteve sentado ao lado de generais invisíveis e dos operários do prodígio celeste, que guardam o universo enquanto ele apenas se preocupa se a cerveja está gelada.
A vida é uma missa que ninguém entende.
Pensando bem, talvez seja melhor assim.