A notícia de que o Detran de São Paulo acabou com a baliza e liberou a prova em carro automático caiu como uma luva para quem tirou carteira quando dirigir era esporte de contato. Aliás, aproveitando o tema automobilístico, me lembro de Jorge Mautner: alguém já portou luvas no porta-luvas?). A baliza era para gerações inteiras, um rito de passagem, um teste de caráter, quase um sacramento automotivo.
Para nós, motoristas raiz, isso soa quase como heresia. Tirei minha carteira quando o candidato a motorista não aprendia apenas a conduzir um veículo; aprendia a lidar com o medo, a humilhação pública e o olhar clínico do examinador, aquele sujeito capaz de reprovar alguém por um suspiro fora do tempo regulamentar.
A baliza era o inferno do aluno. Um inferno bem organizado, com meio-fio, dois cavaletes e um público invisível que, você tinha certeza, estava rindo da sua desgraça. Bastava ouvir o comando: “Pode iniciar a manobra”, para o suor brotar. As mãos tremiam, o pé esquerdo esquecia para que servia a embreagem, o cérebro esquecia de sinalizar, e o carro parecia, deliberadamente, maior do que realmente era.
A baliza não era apenas uma manobra. Era um teste psicológico, físico e espiritual. Um vestibular da sobrevivência urbana. não havia truque, não havia reza, não havia santo padroeiro que ajudasse. A baliza era uma dança macabra entre volante, retrovisor e embreagem. Qualquer erro milimétrico e pronto: roda no meio-fio, reprovação sumária e um trauma que acompanharia o sujeito até a velhice. Aqui vale uma confissão pública, dessas que libertam: até hoje não sei estacionar direito entre dois carros, especialmente se for do lado direito da via. Nunca soube. Nunca vou saber.
Naquela época, a gente aprendia a conviver com isso. Era na base do “se der, deu; se não der, segue o jogo”. Não havia tutorial no YouTube, nem aplicativo salvador. Havia o risco real de desistir da vaga e fingir que era escolha estratégica.
Era uma época em que não existia sensor de ré, muito menos câmera traseira. O que existia era o ouvido colado no silêncio, tentando adivinhar se o “toc” que você ouviu vinha do meio-fio, do para-choque do carro de trás ou da sua autoestima indo embora.
Alguns carros nem direção hidráulica tinham. Girar o volante parado era um exercício de resistência. Só quem dirigiu carro sem direção hidráulica sabe o que é construir músculos sem precisar de academia. Bíceps, tríceps, antebraço e, principalmente, caráter. Era o crossfit involuntário do trânsito.
Mas se a baliza era o inferno, a partida em ladeira era o purgatório com crueldade. O carro parado, o trânsito colado atrás, empilhado numa subida, e você ali, tentando coordenar embreagem, acelerador e freio de mão como quem desarma uma bomba. Não existia esse negócio de carro automático que segura sozinho por alguns segundos quando você solta o freio. Não. O carro manual daquela época tinha personalidade própria.
Ou você acertava o ponto exato da embreagem ou o carro morria. Morria feio. Morria com engasgo. Morria no meio da ladeira, enquanto o motorista do ônibus atrás de você exercitava a buzina como se fosse um instrumento de sopro da Orquestra Sinfônica Municipal.
Viva em São Paulo, que, convenhamos, parece ter sido desenhada para humilhar motoristas em formação. São Paulo não tem ruas, tem ladeiras com CEP. A cidade parece ter sido projetada por alguém que decidiu testar a fé dos motoristas. Toda esquina guarda uma subida traiçoeira, especialmente quando você menos precisa dela.
Hoje, o motorista nutella entra no carro, pisa no freio, solta o pé, e o veículo decide não rolar para trás por pura gentileza. O carro é educado. O carro é compreensivo. O carro quase pede desculpa.
Nós não. Nós aprendemos dirigindo máquinas temperamentais, que apagavam no pior momento, rangiam em protesto e exigiam respeito. Errar significava ouvir buzina, ganhar apelido e, às vezes, voltar a pé para casa com a dignidade amassada.
O mundo mudou. Os carros mudaram. Hoje eles freiam sozinhos, avisam quando você vai bater, estacionam por conta própria e, se bobear, pedem desculpa quando erram. Talvez faça mesmo sentido que o exame de habilitação acompanhe essa evolução e pare de exigir habilidades que já não são essenciais no dia a dia.
Exigir baliza de quem vai dirigir um carro que estaciona sozinho é como pedir datilografia para quem digita no celular.
Fica aqui meu registro nostálgico. Nós, os veteranos da baliza, somos uma espécie em extinção. Carregamos no currículo uma vitória silenciosa, ao conseguir estacionar naquela vaga conquistada entre dois cavaletes, sem tocar no meio-fio, sob o olhar severo do instrutor.
Não ganhamos medalha. Mas saímos dali emocionalmente marcados.
E isso, meus amigos, nenhum carro automático tira da gente.
PS: Blog Na Hora H também é cultura. Sim. No início do século XX, as pessoas guardavam luvas no porta-luvas. Na época, os automóveis eram abertos. Não tinham vidros, nem janelas ou aquecimento. Para se proteger do frio, poeira e vento no hemisfério Norte, enquanto dirigiam e seguravam volantes que muitas vezes eram de metal ou madeira, os motoristas precisavam usar luvas, frequentemente de couro. O compartimento no painel foi criado justamente para guardar essas luvas quando os motoristas não as estavam usando.