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Carta ao Neco

Quanto tempo amigo velho!

A gente anda, toma distância, vai longe, as vezes tão longe que, olhando para trás, não parece ver o que, na distância, vai deixando no caminho percorrido.

Sabe, andei pensando em algumas coisas e me veio à cabeça algumas boas conversas que tivemos. Ai nosso confrade Jorge me lembrou que faz 11 anos que você nos deixou, muito a seu contragosto, diga-se de passagem, como você fazia questão de deixar claro. 

Por isso resolvi escrever essas mal traçadas linhas. Escrevo sem muitas novidades porque as notícias também parecem ser sempre as mesmas. Ao menos na política não mudou muito coisa. Mudam os nomes, mudam as datas, mudam os discursos, mas continua tudo mais ou menos parecido. Se bem que em alguns aspectos está pior.

Veja você que a coisa está tão feia que Walter Alves (MDB), atual vice-governador não aceitou assumir o governo do RN, em substituição a Fátima Bezerra, que já governa o estado a mais de sete anos. Motivo alegado: perigo de desastre ferroviário, o governo passou os pés pelas mãos, gastou mais do que arrecadou. Só de atraso de empréstimos consignados já descontado nos salários dos servidores e não repassados ao Banco do Brasil são R$ 377 milhões de reais.

Agora, Neco, estamos vesperando, eleição para Governador, Senador, Deputados Federais e Estaduais. Para o Governo do Estado temos quatro opções Álvaro Dias (PL), Alysson Bezerra (União Brasil), Cadu Xavier (PT), e Roberto Paulino (PSOL).

Para o Senado, temos Stevenson Valentin (Podemos) , Coronel Hélio (PL), Rafael Motta (PDT), Sandro Pimentel (PSOL), Zenaide Maia (PSD) e Samanda Alves (PT).  Deputados Federais e Estaduais, aquela quantidade de sempre, sem muitas novidades, mas devemos ter renovação em função do desempenho das nominatas.

Os candidatos estão numa correria desenfreada e olhe que a campanha só começa no mês de agosto. Muitas fotos nas redes sociais visitando as cidades, anunciando apoios de prefeito, vice, vereador e liderança com direito a muitos almoços e jantares. A previsibilidade nesta eleição é que tem candidato que acha que vai cumprir, mas pode faltar mercadoria. Tem voto de toda denominação, juntos e misturados numa miscelânea que só se degustava na lanchonete do Chapinha na parada Metropolitana.

Mesmo sem a campanha ter começado oficialmente, tem cada pesquisa que aparece! Você que gostava tanto de ler as pesquisas não ia acreditar no que sai por aí. Os resultados mudam ao gosto do freguês.  Quando sai uma pesquisa com um candidato na frente, no outro dia sai outra com o outro candidato bem na dianteira. Obviamente cada um com seus porta vozes na blogosfera desmerece a do outro. No fim, amigo velho, a única pesquisa em que todo político acredita é aquela que ele encomenda para consumo interno. O resto é marketingue.

Outra coisa que talvez causasse espanto se o amigo ainda estivesse por aqui é a situação dos partidos políticos. Você dizia que eles já não valiam muita coisa. Pois conseguiram piorar. Aqui no Rio Grande do Norte, por exemplo, tem partido que pode apoiar um candidato de esquerda ou um candidato de direita. Ou não apoiar nenhum dos dois ou quem sabe apoiar os dois, liberando cada um para votar como quiser.

Quem quer apoio não exige fidelidade do apoiador. Resultado é que tem apoiador que está apresentando sua chapa, que desconfio o eleitor não vai entender, muito menos compreender. É governador de um partido, senador de outro, deputados federais e estaduais também de partidos diferentes.

Convicção? Propostas? Foram para o beleléu faz tempo. Tudo depende da conveniência do momento, das conversas nos bastidores e dos cálculos pós-eleitorais. O eleitor continua tentando descobrir o que cada legenda defende. Boa sorte para ele.

Mas Neco, a vida não é só política. Você que dizia que se caminhar fizesse bem, o carteiro viveria 100 anos, ia ficar espantado com a quantidade e o tamanho das academias que surgiram. Agora, tem uma em cada esquina.

Mas a maior novidade, meu caro Neco, está nas farmácias. Inventaram umas canetas que prometem emagrecer as pessoas. Não estou brincando. Apareceram umas canetas (não aquelas de escrever) que resolve o problema para quem quer diminuir a barriga e o bolso. Virou febre. Você não se senta ao redor de uma mesa de bar com duas ou três pessoas sem que se fale sobre elas e se contabilize o peso perdido.

E veja só a ironia. Enquanto muitos correm para perder alguns quilos, o mundo continua acumulando excessos. Principalmente excesso de opinião. De manhã, de tarde, de noite, tem especialista e outros nem tanto dando opinião sobre tudo no mundo. Da guerra no Oriente Médio até os escândalos do dia com as operações da PF. Nunca se falou tanto e nunca foi tão difícil saber em quem acreditar.

E por falar em opinião, começou a Copa do Mundo. Aí é que os palpiteiros se multiplicam.  Não sei não se esse time tem alguma chance. Não acompanho mais o futebol como antigamente. Ninguém conhece os jogadores que logo cedo vão para as Oropa ganhar milhões e milhões. Cada um mais desconhecido e mais milionário que o outro.

Lhe digo uma coisa, antigamente o brasileiro tinha muita esperança de que ia ser campeão. Hoje o torcedor acompanha as partidas desconfiado. Torce, grita, veste a camisa, mas fica olhando para o lado para ver se não está passando vergonha. Os tempos são outros.

Mas sabe de uma coisa, amigo velho?

Essa carta já está ficando grande demais. São tantas coisas para contar.

 Sinto falta de algumas conversas lá no Guinza, confesso. Lembro de uma entrevista que fiz com você em 2010. Falávamos da divisão política entre Henrique e Garibaldi. Você observou que aquela disputa poderia representar o começo do fim da força eleitoral da família Alves. Dito e feito. O tempo, como costuma acontecer, acabou dando razão ao velho observador da Ribeira.

Por essas e outras, às vezes fico pensando no que você escreveria sobre este mundo de hoje. Sobre as pesquisas. Sobre os partidos. Sobre as canetas. Sobre os políticos que mudam mais depressa que as pesquisas.

A verdade, amigo velho, é que continua fazendo falta gente capaz de enxergar um pouco mais longe do que os outros.

PS: O amigo Jorge aproveita para também mandar lembranças e promete em breve mandar notícias de Parnamirim.

Um abraço e tchau Nequinho.

 


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