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Corte 84 vislumbra novo mercado com exportação de gado vivo

O encerramento das atividades frigoríficas da Corte 84 no Rio Grande do Norte coincide com a entrada do estado em um mercado bilionário que vem registrando forte expansão no Brasil nos últimos anos: a exportação de gado vivo para países do Oriente Médio e Norte da África.

Após investir em um modelo integrado de produção de carne bovina premium, envolvendo confinamento, abate, processamento e distribuição próprios, a empresa decidiu abandonar a operação industrial e concentrar esforços na exportação internacional de animais vivos a partir do Porto de Natal.

O movimento ocorre às vésperas do primeiro embarque experimental de gado vivo realizado por um porto nordestino. Entre os dias 24 e 25 de junho, o Porto de Natal deverá embarcar 3,3 mil cabeças de gado com destino ao Líbano, em uma operação acompanhada por técnicos da Vigilância Agropecuária Internacional do Ministério da Agricultura.

A expectativa do Governo do Estado é que, após a operação-teste, o terminal seja habilitado para exportações regulares. O secretário estadual de Agricultura, Guilherme Saldanha, estima que a atividade possa movimentar até R$ 1 bilhão por ano na economia potiguar.

A Corte 84 surgiu com uma proposta considerada inovadora para os padrões da pecuária local. O grupo implantou no estado um sistema verticalizado que reunia confinamento de animais, abate controlado, processamento industrial em Macaíba e comercialização própria da carne.

A ideia era produzir uma carne premium, com rastreabilidade e manejo voltado à redução do estresse animal, fator que influencia diretamente a qualidade e a maciez dos cortes bovinos. O modelo incluía confinamento em Ielmo Marinho, abatedouro em Vera Cruz e estrutura de processamento em Macaíba.

O projeto buscava criar no Rio Grande do Norte uma cadeia bovina mais sofisticada e menos dependente da importação de carne de outros estados. O problema foi o custo da operação.

A produção de uma carne diferenciada exigia investimento elevado e resultava em um produto mais caro. Segundo pessoas ligadas ao setor, o mercado consumidor potiguar não respondeu no volume esperado para sustentar o modelo de negócio.

Com isso, a empresa passou a mirar um segmento de menor complexidade industrial e maior demanda internacional.

O mercado brasileiro de exportação de gado vivo existe há décadas, mas atravessa um período de forte expansão. Em 2023, o país exportou cerca de 582 mil cabeças de bovinos vivos, crescimento de quase 300% em relação a 2022. Em 2024, o setor ultrapassou pela primeira vez a marca de 1 milhão de animais embarcados, com alta de mais de 76% sobre o ano anterior, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior compilados por consultorias do agronegócio.

O faturamento do setor chegou a US$ 850 milhões em 2024. Hoje, a maior parte das exportações brasileiras sai do Pará, responsável por mais da metade dos embarques nacionais.

O principal atrativo do Rio Grande do Norte é a localização geográfica. A viagem marítima entre Natal e países do Oriente Médio leva entre 11 e 13 dias, enquanto operações realizadas a partir do Sul do país podem levar até 21 dias. A redução no tempo de navegação diminui custos de combustível, alimentação e manejo dos animais.

A Corte 84 adaptou o Confinamento São Pedro, em São Gonçalo do Amarante, para funcionar como Estação de Pré-Embarque, estrutura exigida pelo Ministério da Agricultura para exportação internacional de animais vivos. O estado possui atualmente duas unidades habilitadas pelo Mapa. A outra fica no Distrito de Irrigação do Baixo-Açu, em Alto do Rodrigues, aprovada pelo ministério em agosto de 2025.

A mudança de estratégia da empresa reflete também uma alteração no perfil da pecuária potiguar. Em vez da aposta em uma cadeia industrial de maior valor agregado, o setor passa a mirar um mercado internacional baseado em escala logística e exportação de animais em pé.

 


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