O Ancelotti disse esta semana em entrevista que a Seleção Brasileira não precisa de craques, quem precisa de craques é o torcedor.
É uma frase interessante. Explica muita coisa sobre o futebol moderno. Confesso que não acompanho muito o esporte bretão fora dos tempos de Copa, ainda mais depois que o glorioso Santos Futebol Clube viu sua glória ir para o brejo disputando a segunda divisão. Mas tenho buscado entender um pouco o que está acontecendo.
O futebol virou outro esporte. Um esporte profundamente profissional, racional, esquematizado e organizado. Os jogos às vezes parecem versões da mesma partida. Tanto faz se está jogando a Espanha ou Cabo Verde, o Brasil ou a Argélia. As ideias se repetem.
O negócio se resume a fazer um bloco baixo, posicionando todos os defensores compactados perto da própria área para atrair os adversários ou amassar as linhas adversárias pressionando a saída.
Existem a fase um, a fase dois e a fase três. Há a transição ofensiva, a transição defensiva, a contra-pressão, a pressão pós-perda. O campo virou uma espécie de planilha com grama.
O jogo passou a ser explicado como uma tese de engenharia com chuteiras.
O futebol moderno produziu treinadores brilhantes e equipes impressionantes. Nunca se estudou tanto o jogo. Nunca falou tanto sobre ocupação de espaços, movimentação e preparação física.
Acho que o Ancelotti está até certo.
Afinal, quem trabalha com futebol profissional não é pago para encantar. É pago, e muitíssimo bem pago, para vencer.
Desse ponto de vista, a frase dele tem sentido
O problema é que o torcedor nunca foi racional.
O torcedor não abre uma cerveja num domingo para admirar a compactação entre setores. Não sai de casa para discutir a eficácia da pressão coordenada no terço final do campo. Não levanta do sofá porque o heatmap mostrou que o lateral ocupou corretamente o corredor interno.
No fundo, ele quer outra coisa.
Quer ver alguém fazer aquilo que ninguém esperava. No fundo o que a gente quer é ver o Vini Junior entortando os adversários, metendo uma caneta no japonês, que até hoje está procurando por ele lá em Houston, e dando um três dedo bem colocado que, se entra, era delírio total.
O Brasil entrou nessa Copa com um time que não tem a característica do velho futebol brasileiro. Quer ser organizado como a Europa, não criativo como os brasileiros. Quer ser tático, não mágico. Quer ganhar e passar para a outra fase, não encantar.
Pode ser que funcione. Pode ser que não.
Quando a gente pensa no Brasil de 1970, lembra de um time que encantou. Quando pensa em 1994, lembra de um time que funcionou e levantou a taça nos pênaltis. Em 2002 apareceu um raro equilíbrio entre as duas coisas. Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho mostraram ao mundo que algumas jogadas simplesmente não cabem em sistema nenhum. Depois disso começou a era do futebol que precisa ser explicado para existir.
O torcedor continua sendo aquele mesmo sujeito que levanta do sofá quando a jogada sai do roteiro. Que grita sozinho em casa quando alguém decide ignorar o sistema por cinco segundos. Que não sabe o que é pressão pós perda, mas sabe exatamente quando o adversário está perdido.
Quanto mais o futebol tenta dispensar craques, mais o torcedor continua procurando exatamente aquilo que não cabe em nenhuma explicação.
Depois do apito final contra a Noruega espero que a gente possa começar a semana lembrando e falando do drible que não deveria ter acontecido, mas aconteceu e resultou no golaço da criatividade brasileira, e não do bloco alto ou do Heatmap do time com as estatísticas que a IA da FIFA fornece aos comentaristas das transmissões yotuberizadas.
Porque vencer é importante.
Mas algumas das melhores lembranças do futebol nasceram justamente quando alguém resolveu desobedecer ao manual.
Bora, Vini.
Entorta esses norugas!