O calendário marca domingo de Páscoa. A tradição cristã reserva a esta data um acontecimento singular na história, capaz de dividir eras entre Antes de Cristo e Depois de Cristo. A ressurreição do Senhor é para bilhões de pessoas a resposta a uma dúvida que sempre inquietou o ser humano o para onde vamos, se é que vamos, depois desta vida terrena. Fora desse ponto de exceção que foi a ressureição a experiência humana parece obedecer a outra ordem, mais regular e silenciosa, em que o corpo nasce, floresce, decai e desaparece.
É desse dado elementar que parte Imortalidade, de Eduardo Giannetti. O livro organiza, com rigor, as formas pelas quais tentamos contornar esse limite. Não se trata de negar a morte, mas de observar como a inteligência humana insiste em responder a ela.
Há, primeiro, a aposta supraterrena: a crença de que a vida não se esgota no corpo. É uma resposta que desloca o problema para além da experiência verificável, sustentada pela fé e por tradições que atravessam séculos.
Há, em seguida, a aposta biológica: prolongar a vida, retardar o declínio, adiar o fim. Aqui, a imortalidade deixa de ser transcendência e passa a ser projeto técnico, um horizonte em construção, ainda incerto, mas cada vez mais presente.
Uma terceira via busca permanência no mundo, deixando um legado. Obras, ideias, memórias, tudo aquilo que pode sobreviver à ausência de quem as produziu. É uma forma indireta de continuidade, dependente do olhar alheio e da passagem do tempo.
E há ainda uma quarta possibilidade, mais discreta, menos grandiosa. Ela não promete continuidade, nem prolongamento, nem memória. Em vez de projetar a vida para depois ou para longe, concentra-se no que está dado. Um presente que não ignora o fim, mas também não se organiza em função dele. Como se, por instantes, fosse possível existir fora da pressão do tempo.
São formas distintas de responder à mesma inquietação, mas não são capazes de resolver a questão.
Até porque certas perguntas não estão ao alcance de solução. Como lembra o próprio Giannetti, ecoando Peter Medawar, há temas que escapam ao domínio da ciência, que pertencem ao campo das “primeiras e últimas coisas”, onde a investigação esbarra em seus próprios limites.
A tradição responde. A ciência investiga. A filosofia interroga, mas nenhuma encerra o assunto.
Jorge Luís Borges sugeriu, com a sobriedade que lhe era própria, que a consciência da morte não nos torna imortais, apenas nos torna conscientes. E isso, longe de resolver, aprofunda o enigma.
Certeza derradeira não há.
O que há é esse intervalo entre o que sabemos e o que nos escapa em que a vida acontece. Uma experiência individual. Uma travessia não sabe de onde para onde.
O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein acreditava que a linguagem era um espelho do mundo e que problemas filosóficos eram apenas confusões lógicas. Nos últimos anos de vida, ele escreveu uma frase que resume bem o que talvez seja a resposta para todas essas indagações: “Minha vida consiste em dar-me por satisfeito com muitas coisas”.
A minha também.
E a sua caro e raro leitor?