Faltando um mês para as eleições, os candidatos a governador entram na fase mais aguda para tentar desconstruir os adversários e ver quem garante a vaga no segundo turno da disputa. Uma mostra de que agora do pescoço para baixo é canela como se dizia no futebol de antigamente, foi dada no debate promovido pela 98 FM na noite desta quarta-feira (2). Na frente nas pesquisas, Allyson Bezerra (União) foi o principal alvo. Durante boa parte do encontro, Álvaro Dias (PL), Cadu Xavier (PT) e Robério Paulino (Psol) recorreram à Operação Mederi, que levou a Polícia Federal a cumprir mandado de busca e apreensão na residência do então prefeito de Mossoró em janeiro deste ano.
Allyson chegou ao debate preparado para esse roteiro. Sabia que seria questionado sobre a investigação e levou para a arena eleitoral processos e episódios envolvendo os adversários. A estratégia foi não permanecer na defensiva e devolver os ataques com acusações contra as administrações de Álvaro Dias e Fátima Bezerra, buscando atingir também Cadu Xavier, que adotou o nome político de Cadu de Lula.
Nepotismo e posse de arma
Contra Álvaro, Allyson explorou a contratação de parentes do ex-prefeito na Assembleia Legislativa, sem concurso, e levou ao debate o episódio ocorrido em 2023, quando um revólver calibre 38 foi encontrado na bagagem de mão de Álvaro durante inspeção no aeroporto de São Gonçalo do Amarante. O caso, que voltou à cena eleitoral agora, resultou no indiciamento de Álvaro pela Polícia Federal por porte ilegal de arma.
A arma, segundo o relato apresentado por Álvaro na época e retomado no debate, havia sido levada por ele de uma propriedade rural para Natal e por esquecimento acabou permanecendo na pasta utilizada na viagem. O episódio ganhou nova dimensão política porque Allyson o utilizou para confrontar o adversário e chegou a dizer que o ex-prefeito havia sido preso pela PF, o que não foi verdade.
Com Cadu, a estratégia foi diferente. Allyson tentou associar o candidato petista ao governo Fátima Bezerra e, por consequência, ao desgaste da administração estadual. Em vez de chamá-lo de Cadu de Lula, passou a tratá-lo como Cadu de Fátima. A operação Lectus, deflagrada pela Polícia Federal, CGU e Receita Federal em 2021, foi um dos instrumentos utilizados para fazer essa ligação.
Operação Lectus
A Lectus investigou suspeitas de irregularidades em contratos para implantação de leitos de UTI durante a pandemia. A Justiça Federal determinou o afastamento de duas servidoras da Sesap. A defesa do governo à época sustentou que a administração colaborava com as investigações. Posteriormente, a Controladoria-Geral do Estado informou ter identificado falhas no processo de contratação e na execução, mas afirmou que elas não comprometiam a contratação e que não encontrou atuação das servidoras afastadas fora de suas atribuições. Mas o fato foi apresentado como arma contra Cadu que, segundo o adversário, foi o responsável pelo pagamento do contrato, o que foi negado pelo petista.
Também voltou ao debate a portaria assinada por Cadu durante a pandemia que, segundo seus adversários, elevou a própria remuneração. O episódio foi utilizado por Allyson para questionar a relação do candidato com o governo Fátima. Ele também foi confrontado pelo fato de estar prometendo obras e serviços que já haviam sido objeto de promessas há 8 anos, quando Fátima foi candidata pela primeira vez. E citou a adutora do Agreste que levaria água para Santa Cruz e a adutora para São MIguel, no Oeste potiguar.
A dinâmica do debate revelou ainda uma convergência entre Cadu e Robério. Mesmo quando os dois estavam em lados opostos de uma discussão, o alvo comum frequentemente reaparecia. Allyson foi chamado pelos três adversários de ator, palhaço, corrupto e farsante, além de ser acusado de receber propina e de envolvimento em desvio de medicamentos.
Operação Mederi
Objeto de investigação na Operação Mederi que passou a ocupar o centro da campanha. Deflagrada em janeiro, a investigação apura suspeitas de fraudes em licitações e contratos de medicamentos em municípios do Rio Grande do Norte. A defesa do então prefeito negou, desde o início, a existência de fatos que o vinculassem pessoalmente às suspeitas.
O debate mostrou que a estratégia de todos mudou. Os candidatos agora estão tentando definir quem carrega mais desgaste, quais governos devem responder por seus problemas e quais episódios da trajetória dos adversários permanecerão na memória do eleitor até a votação.
E, nesse terreno, Allyson passou de alvo quase exclusivo dos ataques a participante ativo da troca de acusações. Ataques a engorda de Ponta Negra, ao hospital municipal de Natal, até hoje sem funcionar, à situação da saúde no Estado e ao hospital de Mossoró, chamado de Policlínica pelo ex-prefeito de Natal também fizeram parte do arsenal que os candidatos apresentaram.
Com 3 candidatos brigando por duas vagas no segundo turno, daqui em diante não deve faltar munição.