As obras de restauração, modernização e ampliação da Cinemateca Brasileira devem começar no segundo semestre deste ano, marcando uma nova etapa na recuperação da instituição que abriga o maior acervo audiovisual da América do Sul e que, há poucos anos, se tornou símbolo da crise na preservação da memória do cinema brasileiro. Uma das principais financiadoras do projeto será a Netflix, que anunciou investimento total de R$ 7,4 milhões por meio da Lei Rouanet.
O início das obras foi anunciado pela diretora-geral da Cinemateca, Maria Dora Mourão, durante a cerimônia de comemoração dos 80 anos da instituição. A primeira etapa da intervenção será a reforma da Sala Oscarito, um dos principais espaços de exibição da Cinemateca. O ambiente receberá novo sistema de projeção, tecnologia de áudio Dolby Atmos, poltronas, reconfiguração dos assentos e recursos de acessibilidade superiores aos exigidos pela legislação.
O projeto, porém, vai muito além da modernização de uma sala de cinema. A proposta prevê a recuperação de todo o conjunto arquitetônico tombado, incluindo edifícios históricos, áreas de preservação, laboratórios e estruturas responsáveis pela conservação de um acervo formado por dezenas de milhares de filmes, fotografias, documentos, cartazes, roteiros e registros que contam mais de um século da história do audiovisual brasileiro.
O orçamento estimado é de R$ 30 milhões. Até agora, cerca de R$ 12 milhões foram captados junto a patrocinadores. Além da Netflix, apoiam a iniciativa o Itaú, o Governo de São Paulo e, mais recentemente, a Petrobras, anunciada como nova patrocinadora pelo Ministério da Cultura.
A participação da Netflix chama atenção por dois motivos. Além de representar o maior investimento privado anunciado até agora para a restauração, é a primeira vez que a empresa utiliza a Lei Rouanet para financiar um projeto cultural no Brasil.
O anúncio encerra um período em que a Cinemateca esteve mais associada às notícias sobre abandono do que à preservação cultural. Entre 2020 e 2022, a instituição enfrentou uma grave crise administrativa. A interrupção dos contratos de gestão e a demora na liberação de recursos deixaram a Cinemateca sem manutenção adequada e provocaram a saída de técnicos especializados, responsáveis pela conservação de um acervo que exige controle permanente de temperatura, umidade e segurança.
Durante esse período, entidades do setor cultural, especialistas e o Ministério Público Federal alertaram repetidamente para o risco de deterioração do patrimônio. Os avisos ganharam contornos dramáticos em julho de 2021, quando um incêndio atingiu um galpão da instituição na Vila Leopoldina, em São Paulo, destruindo parte do acervo documental e reforçando as críticas à falta de investimentos.
Desde a retomada da gestão pelo Ministério da Cultura, a Cinemateca passou a receber novos aportes públicos para recuperar sua infraestrutura. A restauração agora anunciada representa a maior intervenção estrutural desde o início da crise e busca devolver à instituição as condições necessárias para preservar um patrimônio considerado fundamental para a memória do cinema e da produção audiovisual brasileira.