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O homem que derrotou a medicina

Tenho um amigo que deveria estar internado. mas está na fila. Não do SUS, mas da pizzaria.

Tem 55 anos, caminha para os 56, pesa 158 quilos, começou a beber ainda adolescente e nunca perdeu o gosto pela coisa, é fã de carne com gordura, torresmo, hambúrguer, pizza com ketchup, maionese sem economia, refrigerante e qualquer crustáceo que apareça pela frente.

Academia? Nunca entrou.

Caminhada? Só quando o carro quebra ou não encontra vaga perto do trabalho.

Dorme quando quer, come quando quer, vive devendo ao comércio, ao banco e, dizem as más línguas, mas já correu para o Desenrola 2, 3, 4 Mesmo assim, acorda todos os dias distribuindo sorrisos como se tivesse acabado de ganhar na loteria.

É torcedor de dois times, América e Vasco. Só isso já deveria provocar alterações cardíacas importantes. No mínimo uma hipertensão permanente.

Dias atrás resolveu fazer um check-up.

A família já imaginava o médico entrando na sala acompanhado de um padre, um advogado e um representante do plano funerário.

Veio o resultado:

Colesterol normal.

Glicose normal.

Hormônios em ordem.

Pressão 12 x 8.

Exames impecáveis.

As taxas, uma atrás da outra, pareciam boletim de aluno exemplar. O laboratório praticamente pediu desculpas pelo transtorno.

Foi nessa hora que comecei a desconfiar. Não tenho nenhuma prova, naturalmente, mas estou achando que alguém do laboratório esteja recebendo um agrado para alterar os resultados.

Não é possível. Aqueles números não pertencem ao mesmo cidadão que transforma pizza em café da manhã e refrigerante em acompanhamento oficial das refeições.

Neste país em que sempre se dá um jeitinho

Diante desse resultado, proponho que a comunidade científica pare imediatamente tudo o que está fazendo. Ele precisa ser estudado. Não por um cardiologista, um endocrinologista ou um nutrólogo. Precisa ser estudado pela NASA. Talvez por alguma universidade que pesquise fenômenos inexplicáveis ou por cientistas especializados em desafiar as leis da natureza.

Ele simplesmente desmente, sozinho, os zilhões de vídeos que aparecem diariamente na internet. Segundo esses especialistas das redes sociais, um copo de refrigerante reduz sua expectativa de vida em sete minutos. Uma fatia de pizza equivale a um desastre metabólico. Carne gorda é praticamente um pedido formal de infarto. Ketchup tem mais processos contra ele do que muito político. Maionese deveria vir com aviso de risco.

Enquanto isso, meu amigo atravessa décadas colecionando esses hábitos e aparece no laboratório com exames que fariam inveja a muito maratonista.

Talvez exista uma explicação. Quem sabe o organismo dele tenha desistido de lutar e resolveu cooperar. Ou talvez o segredo esteja em viver leve, apesar dos 158 quilos. Ele ri de tudo. Não perde tempo discutindo política em grupo de WhatsApp. Consegue dever meio mundo e ainda perguntar, sinceramente, como vai a família do credor.

Claro que não estou querendo com isso incentivar ninguém a levar a vida como ele leva comendo tudo que a medicina condena e correndo (é apenas figurativo) de qualquer tipo de atividade física. A medicina deve estar certa. Os exames dele é que resolveram cometer um ato de indisciplina.

Até segunda ordem, meu amigo continua sendo um mistério e dos grandes.

Porque é mais fácil explicar a matéria escura do universo do que entender como alguém consegue sobreviver a meio século de refrigerante, gordura, muito sal, Vasco, América, dívidas. e sempre contando piadas e fazendo brincadeiras.

Pensando bem, e se a Nasa descobrir que o que mantém esse homem funcionando tão bem é que ele veio de outro mundo?

Ou será que o bom humor é que faz com que seu exame de sangue pareça ter sido emprestado de outra pessoa? Quem sabe a alegria funcione como remédio. Quem sabe dar boas risadas neutralize parte do colesterol.

Só sei de uma coisa. Se um dia a ciência descobrir como esse homem consegue ter exames quase perfeitos, teremos uma revolução na medicina.

As investigações precisam começar logo. E começar pelo laboratório para saber quem está pagando suborno ao rapaz dos exames.


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