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O turista jurássico

Na crônica da semana, a boa notícia sobre o fim da briga pelo fóssil de dinossauro brasileiro retirado ilegalmente da Chapada do Araripe, há 30 anos, levado para a Alemanha e que agora irá voltar para o Brasil

O Irritator challengeri é, reconheçamos, um nome que combina perfeitamente com a burocracia brasileira. Mas o bicho, coitado, não tem culpa do batismo. Nascido num tempo em que o Cariri não era esse sol de rachar o crãnio, mas sim uma região de águas fartas e umidade tropical, ele passou 110 milhões de anos descansando sua mandíbula de pescador em paz, até que um sujeito com menos escrúpulos que um vendedor de terreno na lua decidiu que ele valia mais na vitrine de um colecionador do que no chão do Nordeste.

A viagem, trinta anos atrás, foi traumática. Imagine a cena: o fóssil, retirado na calada da noite da Chapada do Araripe por contrabandistas que, na sua infinita criatividade, decidiram que o crânio do bicho ficaria mais elegante com um toque de massa plástica, uma espécie de harmonização facial jurássica.

O Irritator foi arrancado de um cenário que ele mal reconheceria hoje, uma espécie de paraíso úmido e verdejante que a memória geológica insiste em guardar, para ser jogado num container com destino à fria Alemanha. Imagine o choque térmico. Ele, habituado a mergulhar em lagoas mornas, de repente se viu atravessando o Atlântico, para acabar numa terra onde a única coisa que tem focinho comprido é a salsicha branca.

Lá em Stuttgart, o choque foi cultural e climático. O coitado passou três décadas sofrendo de uma hipotermia crônica. Dizem os arqueólogos de plantão que ele nem parecia mais o mesmo. Os alemães, com sua mania de organizar tudo em prateleiras, tentaram explicar para o bicho que agora ele não era mais um predador, mas uma peça de museu, um objeto de estudo, um "espécime". O Irritator, em sua sabedoria milenar, apenas observava. Ele via aquela neve lá fora, cinzenta e silenciosa, e devia pensar que a Era do Gelo, que ele tinha evitado por milhões de anos, finalmente o alcançara.

Mas agora o retorno. O fóssil volta triunfante, repatriado, como se fosse um jogador de futebol repatriado por um clube grande. Ele volta, mas não é o mesmo. A Alemanha poliu suas arestas, limpou suas memórias, deu-lhe um verniz de respeitabilidade científica. Ele agora volta ao Ceará com status, com um currículo impecável: "Passou 30 anos no Primeiro Mundo". Vai ser tratado quase como uma celebridade que volta da Europa com sotaque.

O Irritator já sofreu demais com a geladeira germânica. Agora, o que ele mais quer, é uma sombra, um pouco de silêncio e o direito de não ser confundido com um troféu de sala de estar. O sertão mudou, a ciência avançou, mas o dinossauro mantém a dignidade de sua postura de cima dos seus mais de sete metros de altura.

Bem-vindo de volta, caro Irritator. Tente não estranhar o calor. E, pelo amor de Darwin, tenha paciência com as visitas de escolas cheias de gente querendo tirar selfie com você.

 

 


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