A ciência agora arrisca responder uma das perguntas mais antigas da humanidade: quanto tempo ainda temos.
Um exame de sangue, algumas centenas de variáveis, inteligência artificial e pronto, há estudos sugerindo que pequenas moléculas podem prever, com boa margem de acerto, se alguém estará vivo daqui a dois anos.
É um tipo de precisão que impressiona e inquieta.
Quase ao mesmo tempo, outra frente da ciência tenta resolver uma questão ainda mais concreta. O que fazer quando o corpo para. Pesquisas com polilaminina mostram que talvez seja possível reconstruir caminhos interrompidos na medula, como quem recoloca trilhos onde antes só havia ruptura. Não é um truque de cinema, nem um milagre bíblico. É ainda mais poderoso, o retorno de movimentos mínimos, capazes de devolver autonomia, dignidade e que enche de esperança a vida de milhares de pessoas que vêm a possibilidade como um avanço real para suas vidas no futuro.
Em paralelo, a medicina avança na escala microscópica. Novos medicamentos conseguem bloquear mecanismos inflamatórios específicos, como no caso recente de um tratamento oral para psoríase que atua diretamente em um receptor preciso do sistema imunológico. É a lógica do ajuste fino aplicada ao corpo humano, desligar apenas o que faz mal e preservar o resto.
E, como se isso não bastasse, há quem esteja olhando ainda mais fundo. A biologia quântica, esse território onde moléculas obedecem a regras estranhas, tenta entender se processos vitais podem depender de fenômenos que, até pouco tempo, pertenciam apenas à física teórica.
É como se estivéssemos, ao mesmo tempo, medindo o tempo, reconstruindo caminhos, ajustando engrenagens e investigando o próprio código da existência.
Cada uma dessas descobertas carrega uma promessa silenciosa,
A previsão nos lembra que nosso tempo é finito, mas agora talvez até estimável.
A reconstrução dos neurônios sugere que caminhos podem ser refeitos, mesmo quando tudo parece interrompido.
Os novos tratamentos indicam que nem todo desequilíbrio é definitivo, alguns podem ser corrigidos com precisão.
E a biologia quântica insinua que a vida, no fundo, pode ser ainda mais misteriosa do que imaginamos.
Mas não me iludo, agora mesmo tudo pode estar por um segundo, como traduziu o mestre Gil em sua magistral Tempo Rei.
A mesma ciência que talvez consiga dizer quanto tempo ainda temos não consegue dizer o que fazer com esse tempo.
Ela reconstrói trilhos, reativa caminhos, mede probabilidades, prevê desfechos. Pode até devolver o movimento a quem já tinha aprendido a viver sem ele. Mas não opina sobre o destino da viagem. Não escolhe por onde seguimos, nem com quem dividimos o vagão. Não mede o peso de um afeto, nem a importância de um reencontro, nem nossa capacidade de recomeçar.
O tempo é rei. A ciência até tenta acompanhá-lo, medi-lo, antecipá-lo. Mas viver continua sendo imprevisível.
Esse é o equilíbrio mais curioso do nosso tempo. A ciência cada vez mais capaz de nos devolver caminhos, mas nos cabe a velha e indelegável tarefa de decidir para onde ir.
Porque viver, com seus afetos, seus dissabores, suas manias e suas escolhas, continua sendo algo que nenhum algoritmo, nenhuma molécula e nenhum laboratório conseguiram fazer.
Ainda.