A morte do cão Orelha em Santa Catarina chama a atenção para algo que está acontecendo e que atarefados no dia a dia da sobrevivência, nem vimos, nem ouvimos falar.
O que aconteceu numa praia em Florianópolis parecia, no início, uma brutalidade isolada. Mas não é. Descobri que até existe um nome para isso: Zoossadismo. E existe uma prática organizada em torno dele.
A BBC mostrou recentemente que há grupos inteiros dedicados à tortura de animais que circulam livremente na internet em plataformas comuns. Eles estão em jogos e em chats acessíveis a qualquer adolescente com um celular na mão.
No Brasil, um núcleo da Polícia Civil de São Paulo monitora essas comunidades de madrugada. Todas as madrugadas. Segundo os investigadores, cenas de tortura e morte de cães e gatos aparecem diariamente. Já são rotina.
Os números mostram isso. Desde a criação da equipe, 358 meninas foram resgatadas de arenas virtuais de violência. 208 adolescentes foram internados. 58 adultos presos. Mais de mil animais salvos desses desafios. É uma estatística policial que choca quem achava que casos como o de Orelha, eram casos isolados.
A delegada que coordena o trabalho diz algo que deveria gelar qualquer um. Há noites com dois ou três casos. Em outras, até vinte. A violência não tem objetivo além da própria violência.
A BBC também mostrou que isso não se limita ao Brasil. Uma rede internacional foi identificada. Milhares de integrantes. Grupos ativos em vários países. Em um período de um ano, a cada 14 horas, em média, um novo vídeo de tortura e execução de gatos era publicado. Um dos participantes teria registrado a morte de mais de 200 animais.
Orelha entra nesse cenário como aquilo que escapou do subterrâneo. Um caso visível. Um símbolo encontrado. Quase um mártir que pode servir para a sociedade acordar para o que acontece nesses tempos em que a violência se normalizou.
O caso do Orelha se conecta com outros fenômenos que crescem no mesmo solo. Grupos neonazistas que se reorganizam pelo mundo. Comunidades digitais que celebram a violência como identidade. Discursos que transformam o outro em coisa.
A lógica é parecida. Primeiro vem a linguagem. Depois a perda de empatia. Por fim, o ato.
Nos grupos extremistas, o alvo costuma ser gente. Imigrantes. Minorias. Adversários políticos. Nos grupos de zoossadismo, o alvo são animais. Mas o mecanismo é o mesmo. O outro deixa de ser visto como vida e passa a ser visto como meio de afirmação, de pertencimento a um grupo, e de poder dentro desse grupo.
Não é coincidência que essas práticas floresçam nos mesmos ambientes digitais, onde proliferam plataformas pouco moderadas. Às vezes começa com um cachorro. Às vezes com um gato. Às vezes com alguém humilhado, tratado como ameaça abstrata. Em todos os casos, o que se perde primeiro é o limite.
Por isso o caso do Orelha incomoda tanto. Ele é pequeno demais para justificar explicações grandiosas, mas grande demais para ser ignorado.
A reação da sociedade foi forte. Isso importa. Mas não apaga o fato de que, enquanto muitos se indignam, existe um ecossistema inteiro funcionando no escuro. Organizado. Persistente. Crescente.
Zoossadismo é um sintoma de algo que se espalha pelo mundo. Ele aponta para um mundo em que a violência passou a ser compartilhada. O elo entre o zoossadismo, o extremismo e outras formas de brutalidade não está no alvo escolhido, mas na facilidade com que se aprende a não sentir nada.
Quando isso acontece, pouco importa quem sofre. Primeiro se assiste. Depois se perde a repulsa. Depois se participa.
Orelha não explica nada.
Ele apenas mostra onde estamos.