O padre Fábio Potiguar anunciou sua saída da capelania da Igreja das Fronteiras, no Recife, local onde viveu e pregou durante a maior parte da sua vida. A saída ocorre após divergências com a atual direção do Instituto Dom Helder Câmara. A decisão foi comunicada pelo próprio sacerdote em uma mensagem publicada em suas redes sociais, na qual afirma que as incompatibilidades passaram a dificultar o exercício cotidiano de suas responsabilidades.
Potiguar diz que tomou a decisão em "pleno entendimento e comunhão" com o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Paulo Jackson. Ele não detalha quais foram as divergências com a direção do instituto.
O sacerdote exercia a capelania desde 2019 e afirma que, durante esse período, procurou manter viva na comunidade a memória e o pensamento de Dom Helder Câmara, especialmente sua defesa dos pobres, da justiça, da paz e dos direitos humanos.
A Igreja das Fronteiras tem importância central na memória de Dom Helder. Foi no local que o religioso viveu durante os últimos anos de sua vida, entre 1968 e 1999. O espaço abriga ainda o memorial dedicado ao arcebispo, com objetos pessoais, documentos e registros de sua trajetória.
A relação de Potiguar com a memória de Dom Helder vinha sendo destacada pelo próprio instituto. Em janeiro deste ano, o Instituto Dom Helder Câmara o apresentou como capelão das Fronteiras na programação dos 117 anos de nascimento do religioso, em celebração presidida por Dom Paulo Jackson.
Natural de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, Fábio Potiguar chegou à Igreja das Fronteiras em 2018 e se tornou uma das figuras mais conhecidas na preservação e divulgação da memória de Dom Helder. Em sua mensagem, o padre afirma que ficará ausente por algum tempo. Diz também que, ao retornar, continuará sua missão religiosa e buscará os caminhos que lhe forem confiados.
A saída ocorre depois de informações publicadas na imprensa sobre supostos constrangimentos enfrentados pelo sacerdote na relação com o Instituto Dom Helder Câmara. Uma reportagem publicada em 18 de agosto relatou que pessoas próximas ao padre associavam os problemas à direção do instituto. A diretora Virgínia Pimentel negou qualquer interferência na saída e afirmou que a decisão sobre a permanência do capelão cabe ao arcebispo.
Na mensagem publicada pelo próprio padre, porém, o foco está na decisão pessoal e nas divergências institucionais. Potiguar afirma que leva consigo a gratidão pelos anos de convivência e reafirma sua disposição de continuar servindo à Igreja. "Sou um homem da Igreja, para Igreja e com a Igreja com respeito, obediência e amor", escreveu ao encerrar a mensagem.
Histórico ligado aos Direitos Humanos
Padre Fábio Potiguar construiu sua trajetória pastoral ligada à defesa dos direitos humanos e das causas sociais. Em 2018, foi convidado a coordenar a reinstalação da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, criada por Dom Helder Câmara durante a ditadura militar para acolher perseguidos políticos e atuar diante de denúncias de violações de direitos. O próprio padre define a promoção, proteção e reparação dos direitos humanos como um compromisso de vida, desenvolvido em sua atuação na Igreja, na sociedade civil e no poder público. Também esteve ligado ao diálogo inter-religioso e a ações contra a intolerância e a discriminação.
A ligação com Dom Helder ganhou uma dimensão particular a partir de sua chegada à Igreja das Fronteiras, em 2018. Foi ali que Dom Helder viveu de 1968 até sua morte, em 1999, e onde desenvolveu parte importante de sua atuação em defesa dos pobres, da paz e dos direitos humanos. Fábio Potiguar passou a atuar na preservação dessa memória e chegou a criar, com apoio do Instituto Dom Helder Câmara, o projeto Dom Cultural, inspirado nos saraus e encontros culturais promovidos pelo arcebispo. Em 2020, ao celebrar 25 anos de sacerdócio na própria igreja, definiu sua relação com aquele espaço como a de um "padre de fronteiras", expressão que resume também a proximidade de sua trajetória com o legado deixado por Dom Helder.