A britânica Sarah Mullally assumiu nesta quarta-feira (25) como a primeira mulher a ocupar o cargo de arcebispa de Canterbury, tornando-se líder espiritual de cerca de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo e marcando um feito inédito em mais de 1.400 anos de história da Igreja Anglicana.
A cerimônia de posse foi realizada na Catedral de Canterbury, na Inglaterra, reunindo cerca de 2 mil convidados, entre eles o príncipe William e a princesa Kate, além do primeiro-ministro Keir Starmer e lideranças religiosas de diferentes países. Mullally foi entronizada na tradicional Cadeira de Santo Agostinho, símbolo da autoridade do arcebispo, em um rito que combinou elementos históricos e manifestações contemporâneas.
Antes da celebração, o Vaticano enviou uma mensagem de felicitação à nova arcebispa, na qual o papa Leão destacou a importância da continuidade do diálogo entre católicos e anglicanos e manifestou expectativa de cooperação em temas comuns, reforçando o caráter ecumênico da relação entre as duas igrejas.
Ex-enfermeira e ex-bispa de Londres, Mullally tem 63 anos e construiu trajetória tanto no sistema público de saúde britânico quanto na vida religiosa. Ela sucede Justin Welby, que deixou o cargo após pressões decorrentes da condução de casos de abuso dentro da Igreja, tema que voltou a ser mencionado pela nova líder em seu primeiro discurso.
Em sua fala inicial, Mullally fez um apelo por paz em regiões afetadas por conflitos, como Oriente Médio, Ucrânia, Sudão e Mianmar, e afirmou o compromisso com valores como verdade, compaixão, justiça e ação, reconhecendo também falhas institucionais do passado.
A nomeação ocorre em meio a tensões internas na Comunhão Anglicana, especialmente com setores conservadores em países africanos e asiáticos, que criticaram a escolha. Ainda assim, aliados avaliam que a chegada de Mullally representa um movimento de transformação e abertura dentro da Igreja da Inglaterra, mesmo em um cargo cuja influência é mais simbólica e baseada na persuasão do que em autoridade direta sobre todas as igrejas anglicanas.
ANGICANA x CATÓLICA: principais diferenças
A Igreja Anglicana surgiu no século 16, após a ruptura do rei Henrique 8º com Roma, enquanto a Igreja Católica mantém continuidade institucional com o papado. A principal diferença é que os católicos reconhecem o papa como líder máximo e com poder doutrinário centralizado, enquanto os anglicanos têm uma estrutura mais descentralizada, na qual o arcebispo de Canterbury exerce liderança simbólica, sem autoridade direta sobre todas as igrejas da comunhão.
No campo doutrinário e disciplinar, a Igreja Anglicana admite maior flexibilidade. Permite, por exemplo, a ordenação de mulheres como sacerdotes e bispos e agora também como arcebispa e, em algumas províncias, aceita bênçãos a casais do mesmo sexo. Já a Igreja Católica mantém posições mais restritivas nesses pontos, não permitindo a ordenação feminina e preservando regras mais rígidas sobre casamento e moral sexual.
Outra diferença está na liturgia e organização interna. Embora preserve elementos tradicionais semelhantes ao catolicismo, como sacramentos e estrutura episcopal, o anglicanismo incorpora influências protestantes e concede maior autonomia às igrejas nacionais. Já a Igreja Católica segue um modelo mais uniforme, com doutrina e práticas definidas pelo Vaticano.