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Procurando o fio da meada

Dois fatos novos hoje deixaram ainda mais intrincada a meada de fios que ligam o banqueiro Daniel Vorcaro à produção do filme Dark Horse, inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Um foi a divulgação pelo Intecept Brasil de áudios do deputado federal Mário Frias (PL), também produtor do filme ao próprio Vorcaro. O outro “fato novo” foi o reconhecimento pelo senador Flávio Bolsonaro de que teve encontros presenciais com Vorcaro, mesmo depois da prisão do empresário e posterior soltura com o uso de tornozeleira.

A sequência dos fatos passou a expor um enredo político marcado por versões sucessivamente ajustadas conforme novas revelações surgem.

Na primeira reação pública, divulgada na quarta-feira, Mário Frias e a produtora GOUP Entertainment afirmaram categoricamente que “não havia um único centavo” de Vorcaro ou do Banco Master no financiamento de Dark Horse. A nota buscava criar uma barreira entre a produção cinematográfica e o banqueiro, investigado pela Polícia Federal por suspeita de participação em fraudes financeiras bilionárias.

O próprio Frias chegou a afirmar que, ainda que houvesse investimento do empresário, isso não representaria ilegalidade por se tratar de capital privado sem uso de recursos públicos.

Menos de 24 horas depois, porém, o discurso mudou.

Em nova nota, o deputado reconheceu que o filme recebeu recursos ligados a Vorcaro, embora tentasse sustentar que não existiria contradição entre as declarações anteriores. Segundo ele, haveria apenas “diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”.

Hoje, novos áudios revelados pelo Intercept Brasil mostram que o deputado e produtor do filme sabia muito bem que havia muito mais do que centavos do banqueiro no projeto de fazer um filme sobre o ex-presidente. Nas gravações, Frias aparece agradecendo o apoio recebido para o projeto, afirmando que o filme iria “mexer com o coração de muita gente” e classificando a obra como “a maior superprodução de uma história brasileira”.

Ao mesmo tempo, o senador Flávio Bolsonaro também foi alterando sua versão pública sobre o caso.

Num primeiro momento, reagiu atacando o jornalista responsável pela reportagem e atribuindo motivação política ao vazamento das mensagens. Depois, admitiu as conversas com Vorcaro e confirmou que buscava recursos para impedir a paralisação do filme.

Agora, o senador deu mais um passo ao reconhecer, em conversa com integrantes do PL e posteriormente à imprensa, que esteve pessoalmente com Vorcaro em São Paulo após a prisão do banqueiro e já no período em que ele utilizava tornozeleira eletrônica.

Segundo Flávio, o encontro ocorreu porque os atrasos nos pagamentos colocavam em risco a continuidade da produção de Dark Horse. Ele afirmou que naquele momento percebeu que a situação do empresário era “muito mais grave” do que imaginava.

Nos bastidores políticos, a avaliação é que o problema deixou de ser apenas o financiamento de um filme e passou a envolver a credibilidade das versões apresentadas por aliados do ex-presidente.

A cada nova revelação, a narrativa inicial foi sendo parcialmente revista. Primeiro veio a negação da relação financeira. Depois a admissão dos contatos. Em seguida o reconhecimento da busca de recursos. Agora aparecem os encontros presenciais e os áudios que demonstram uma relação próxima entre os envolvidos na produção e o banqueiro.

O caso também produziu um efeito político inesperado. O filme que vinha sendo tratado como peça estratégica para reforçar a imagem internacional de Bolsonaro acabou se transformando em mais um foco de desgaste para aliados próximos do ex-presidente.

Entre bolsonaristas, a preocupação maior é que novas revelações documentais ou financeiras acabem tornando insustentável a tentativa de separar o projeto audiovisual das relações mantidas com Vorcaro e o filme acabe se transformando numa peça de campanha sobre quem financiou, articulou e sustentou politicamente a produção, servindo durante toda o horário eleitoral como prova da ligação de Bolsonaro com o banqueiro que ostentava riqueza pelo mundo afora, enquanto roubava dinheiro dos brasileiros.

Pesquisa

O impacto político da crise também começou a aparecer nas pesquisas. Levantamento Atlas/Bloomberg divulgado nesta terça-feira mostrou queda de seis pontos de Flávio Bolsonaro em um cenário de segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva após a divulgação dos áudios envolvendo pedidos de recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo o instituto, Flávio aparece agora com 41,8% das intenções de voto, contra 48,9% de Lula. A rejeição do senador chegou a 52% e ultrapassou numericamente a do presidente, que registrou 50,6%.

A pesquisa foi realizada entre os dias 13 e 18 de maio, período marcado pela divulgação das mensagens, áudios e novas informações sobre a relação entre integrantes do entorno bolsonarista e Vorcaro.

Após a repercussão do levantamento, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro acionou a Justiça Eleitoral pedindo a suspensão da divulgação da pesquisa sob argumento de que o modelo adotado induziria percepção negativa sobre o senador, mas agora é tarde.

 


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