Na sexta-feira eles voltaram.
Voltaram da Lua ou, mais exatamente, de uma volta ao redor dela, que é uma forma elegante de dizer que chegaram perto o suficiente para ver melhor e longe o bastante para não tocar em nada.
Sempre achei curiosa a velha expressão “o lado escuro da lua”, popularizada no disco do Pink Floyd. Como pode ser escura e tão misteriosa depois tantos foguetes e espaçonaves que foram até lá ou muito além, tiraram fotos, e até foram tocadas por seres humanos ainda nos anos 60, já lá se vão mais de 50 anos, quando a tecnologia era muito mais rudimentar do que a de hoje?
Me lembro, menino, do poster que tinha na parede do meu quarto com um dos foguetes Apolo, já não sei mais o número. Mas era desses posteres que vinham junto com revistas, provavelmente a Manchete, marcando grandes feitos da história.
Agora, tudo é digital. A missão Artemis II foi isso. Foi um contorno na lua. Grande vantagem se ninguém desceu lá para ver de perto se encontrava um lunático (ou seria um lunês?) andando pelo nosso satélite, quem sabe no lado escuro, que agora aprendi não é escuro. É apenas oculto.
Mas é assim Nada de heroísmo espalhafatoso, nenhuma bandeira fincada, nenhum pequeno passo humano ou salto gigantesco para a humanidade. Apenas quatro pessoas e uma nave descrevendo uma curva perfeita no espaço, enquanto aqui embaixo a vida segue seu trajeto menos geométrico.
Houve um momento, breve e quase burocrático para quem gosta de números, em que a nave passou por trás da Lua e a Terra desapareceu. Sumiu mesmo. Não dava para ver, não dava para ouvir, não dava sequer para confirmar que ela continuava ali.
Mas continuava é claro. E nós continuamos aqui na Terra, visível, concreta e barulhenta. Continuamos a produzir nossas invisibilidades com uma eficiência admirável. Algumas são discretas, como o cansaço de quem acorda cedo e calcula o preço do combustível. Outras são mais ambiciosas, envolvendo países, discursos e a antiga tentação de querer dominar o mundo, hoje tão visível no todo poderoso senhor do planeta que quer garantir seu petróleo mesmo que para isso precise apagar uma civilização inteira do mapa.
Penso no Irã que já foi o Grande Império da Pérsia, centro do mundo possível, quando o mundo ainda cabia em caravanas, poemas e descobertas feitas sem pressa. Foi ali que Saadi de Shiraz escreveu, no século XIII, um verso que atravessou invasões, impérios e a própria paciência da história
“Os seres humanos são membros de um mesmo corpo
Pois foram criados da mesma essência
Se o destino ferir um de seus membros,
Todos os outros sentirão a dor.
Tu, que não te sensibilizas com a dor alheia,
Não mereces ser chamado de humano”
Ironia da história. O verso está hoje numa parede da Organização das Nações Unidas, tecido em um tapete persa, é claro, e enquanto o verso adorna o que deveria ser uma instituição capaz de mediar os conflitos e resolver as questões mundiais, os iranianos correm o risco de voltarem a viver na Idade da Pedra, como ameaça o Dono do Mundo.
Por um lado, avançamos o suficiente para dar a volta na Lua, mas ainda discutimos sobre quem manda no petróleo, como se a Terra fosse grande demais para caber em um entendimento mínimo.
Os astronautas foram e voltaram.
Aqui, a gente também vai e volta, mas entre casa e trabalho, entre o posto de gasolina e a conta que não fecha, entre o susto do noticiário e a tentativa de seguir o dia como se fosse possível ignorar que, em algum lugar, alguém cogita começar mais uma guerra em nome de alguma razão ou de razão nenhuma. .
Eles foram lá e viram o lado oculto. O lado que só esses quatro seres humanos viram em toda a história.
Chamamos de lado escuro aquilo que nunca vimos, mas a Lua, com sua paciência mineral, insiste em não confirmar a metáfora. O lado oculto recebe luz, tem relevo, tem história. Apenas não se oferece ao nosso olhar.
Nem tudo o que existe quer ou consegue ser visto.
Os quatro astronautas foram e voltaram.
A Terra permaneceu igual, a Lua seguiu no seu movimento exato, indiferente às nossas urgências. E nós continuamos aqui, tentando avançar rumo a Marte enquanto ainda não resolvemos o que fazer com este pequeno ponto azul que, visto de longe, não revela quem está certo, nem quem está errado, mas apenas que estamos todos, de alguma forma, no mesmo lado visível de alguma coisa.
Cada pessoa, cada país, cada tempo guarda também o seu lado oculto e nós continuamos com a dificuldade de reconhecer, mesmo à plena luz, a humanidade que nos liga.