O anunciado pedido de recuperação judicial da fabricante de brinquedos Estrela produziu um sentimento estranho em muita gente da minha geração. Não exatamente tristeza. Também não apenas nostalgia. Outra coisa. Como se, de repente, alguém tivesse aberto uma velha caixa guardada no fundo da memória e dela começassem a sair sons, cheiros e cenas que estavam adormecidos havia décadas.
A não ser para especialistas no mercado, a notícia principal não era sobre juros, dívida, ou importações do mercado asiático. Era uma notícia que nos levava a um lugar muito mais distante. A infância.
A Estrela não fabricava apenas brinquedos. Ela fabricava sonhos e acompanhou diferentes fases da vida de milhões de brasileiros. Havia sempre um brinquedo da marca em alguma parte da casa, atravessando aniversários, férias escolares e manhãs de Natal.
O Topo Gigio chegava primeiro, ainda na primeira infância. O boneco lançado pela Estrela em 1970 não se movimentava, não tinha mecanismos sofisticados. Não andava, não interagia, não fazia nada que os brinquedos modernos fazem, mas havia qualquer coisa naqueles olhos e orelhas enormes, que remetia a voz doce da televisão, e naquele jeito tímido que levou o ratinho a ocupar quartos, camas e imaginários infantis. Talvez porque os brinquedos daquela época dependessem mais da imaginação das crianças do que da tecnologia. A magia era construída por quem brincava.
As meninas tinham suas bonecas. Minha irmã tinha uma Suzi. E uma das lembranças mais bonitas daquele tempo era perceber que as bonecas não falavam sozinhas. Quem dava voz a elas eram suas pequenas donas. As meninas criavam diálogos inteiros, mudavam o tom da voz, inventavam personalidades, brigas, amizades e festas. O brinquedo não vinha pronto. A criança completava o que faltava com imaginação.
Depois já as crianças maiorzinhas tinham os jogos que exigiam algo hoje é cada vez mais raro: a presença física. O Jogo Detetive reunia irmãos, primos e amigos em torno da mesma mesa durante horas. Havia um suspense genuíno na tentativa de descobrir quem matou o Dr. Black; Teria sido na biblioteca com o candelabro, ou na sala de estar com o castiçal? Crianças se inclinavam sobre o tabuleiro com uma concentração quase adulta, tentando desvendar pistas.
O Banco Imobiliário resumia melhor do que qualquer outro brinquedo o espírito daquela época. Era um jogo lento, demorado, feito para tardes inteiras das férias escolares. O tabuleiro se espalhava pela mesa enquanto alguém assumia orgulhosamente a função de banco e organizava os famosos dinheirinhos coloridos, das notas de um aos cobiçados quinhentos. As cartas de “Sorte ou Revés” mudavam destinos inteiros em segundos. “Receba $50.” “Vá para a prisão sem direito a fiança.” E aqueles pequenos peões de plástico atravessavam lentamente as ruas imaginárias do tabuleiro enquanto crianças aprendiam, sem perceber, sobre sorte, ambição, negociação e ruína.
E então havia o Autorama.
O brinquedo que mais produzia euforia para quem estava entrando na adolescência. O Autorama foi lançado na década de 1960, mas durante anos foi sinônimo dessa categoria de brinquedos. O barulho metálico dos carrinhos nas curvas ainda parece ecoar na memória de quem brincou com ele. As pistas montadas no chão da casa, com disputas acirradas, o controle da velocidade para não sobrar nas curvas sem perder posições na competição.
Cada um tinha seu próprio carrinho e incrementava a máquina nas idas ao Centro de São Paulo para trocar as famosas “palhinhas” gastas dos carrinhos. Hoje isso parece pertencer a outra civilização. Existiam lojas especializadas apenas em manter vivos aqueles pequenos carros elétricos.
O Genius veio anunciar a chegada dos brinquedos eletrônicos. Foi o primeiro jogo eletrônico vendido no Brasil. Naquele começo dos anos 1980, o “computador que fala” parecia algo saído do futuro. As luzes coloridas piscando hipnotizavam crianças diante de um desafio que hoje parece rudimentar, mas que naquela época era quase mágico.
Ainda assim, mesmo o Genius era coletivo. Sempre havia alguém em volta olhando, tentando decorar a sequência, rindo do erro do outro, esperando a própria vez. Essa a maior diferença de uma infância em que os brinquedos eram feitos para os encontros.
Minha geração jogava bola na rua, empinava pipa, jogava bola de gude, andava de bicicleta em ruas de terra. E quando entrava em casa, os brinquedos continuavam sendo experiências compartilhadas. Era preciso reunir gente para brincar. O Banco Imobiliário precisava de jogadores. O Detetive precisava de suspeitos. O Autorama precisava de adversários. Até as bonecas precisavam de irmãs, primas e amigas para ganhar vida.
Hoje os jogos nos celulares frequentemente isolam. Cada criança diante da própria tela. Cada jogador conectado ao mundo inteiro e, paradoxalmente, sozinho.
A notícia sobre a Estrela mais do que o resultado de uma empresa em crise. É uma crônica sobre a infância de muita gente pedindo socorro. É sobre lembranças que sobreviveram. Sobre uma cena que se repetia anualmente. A manhã seguinte ao Natal. Criança tinha que dormir cedo. Os presentes ficavam guardados até amanhecer. Havia ansiedade, curiosidade e quase uma insônia infantil diante da possibilidade de finalmente começar a brincar com o que tinha ganho.
Até que amanhecia.
E então vinha o ritual inesquecível de abrir as caixas da Estrela espalhadas pela sala. O barulho do plástico sendo rasgado. O cheiro do brinquedo novo. O manual dobrado. As peças caindo no chão. O primeiro teste no Autorama. A primeira rodada do Banco Imobiliário. O Genius piscando luzes no canto da mesa enquanto alguém ainda tomava café.
A recuperação judicial da Estrela pode ser apenas mais um capítulo empresarial de um país em transformação. Mas para muita gente ela dói porque faz lembrar que o tempo passou e aquela infância que transformava brinquedos em companhia ficou para trás e a sala ficou silenciosa.