O candidato do PSOL ao Governo do Rio Grande do Norte, Robério Paulino, conseguiu incluir a maconha na campanha eleitoral de 2026 por uma porta bastante específica. Durante entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan News Natal, ele foi questionado sobre drogas e respondeu que o combate deve se concentrar no tráfico e nas drogas que considera pesadas. Para o consumo individual de maconha, a conversa foi outra. “Nós respeitamos o direito, se um aluno da UFRN quer fumar o baseado dele, sem incomodar ninguém, para nós não tem problema”, afirmou. A declaração foi dada durante a sabatina de 25 minutos promovida pela emissora com os candidatos ao Governo.
A política brasileira conhece bem os riscos eleitorais desse assunto. Fernando Henrique Cardoso contou, em entrevista à Playboy de 1984, que havia experimentado maconha nos Estados Unidos. “Eu dei uma tragada, achei horrível”, disse. Anos depois, a declaração foi explorada por Jânio Quadros na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Jânio chegou a usar a maconha como munição moral contra o adversário, inclusive com a conhecida provocação de que FHC poderia colocar maconha na merenda das crianças.
Há ainda uma confusão histórica que atravessou gerações. A frase “fumei, mas não traguei” não é de FHC. É de Bill Clinton, nos Estados Unidos. FHC, ao contrário, disse que tragou e achou a experiência ruim.
Eduardo Paes também descobriu em 2008 como uma tragada pode ocupar espaço numa campanha. A polêmica sobre o posicionamento de Eduardo Paes em relação à maconha teve origem em uma reportagem da revista Veja Rio de 1996, na qual o então subprefeito da Barra da Tijuca admitiu ter fumado maconha e declarou apoio à descriminalização. O tema foi resgatado pelo jornal O Globo durante a campanha eleitoral de 2008, evidenciando uma contradição com o discurso conservador adotado por Paes naquele pleito. O próprio Paes contou em um encontro com o então prefeito de Natal, Carlos Eduardo, como em campanha política tudo pode ser explorado. "O Globo puxou o assunto fui para o segundo turno contra Gabeira e tive que passar o tempo todo me explicando. Eu contra Gabeira e no fim o maconheiro era eu.", disse em tom de blague.
É bem verdade que o contexto político de 2026 é outro, assim como a legislação e o debate público sobre drogas. O candidato do PSOL é professor da UFRN e sabe que muitos dos seus eleitores são estudantes universitários que defendem a liberação da maconha por isso e também por não estar disputando a liderança das pesquisas a declaração de Robério não teve tanta repercussão.
Em resumo: FHC teve a sua tragada. Clinton teve a sua não tragada. Paes teve de explicar a sua. Robério resolveu falar para os alunos da universidade que "quer fumar o baseado dele sem incomodar ninguém".