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A mulher que esperou a morte

Sexta-feira à tarde no Beco da Lama tem uma virtude que os outros lugares da cidade perderam há muito tempo: ali ainda é possível conversar sem objetivo. Não se trata de convencer ninguém, vencer uma discussão ou produzir uma opinião para publicar em alguma rede social. As pessoas apenas falam. Um assunto puxa outro, uma lembrança corrige um argumento, uma história interrompe uma certeza. Quando se percebe, já não se sabe exatamente onde a conversa começou.

Foi assim naquele fim de tarde.

Alguém apareceu com uma notícia no celular. Uma mulher nos Estados Unidos, condenada à morte por um crime cometido há mais de trinta anos, finalmente seria executada. O Estado preparou tudo o que era necessário para cumprir a sentença. Aplicou a injeção letal. Mas alguma coisa deu errado. Em vez de morrer, ela sobreviveu e precisou ser levada a um hospital.

A notícia demorou alguns segundos sobre a mesa, como acontece com os assuntos realmente estranhos.

O primeiro a falar foi um amigo muito religioso, já com a data de quem já viu a vida desmentir muitas certezas.

Disse apenas que não era a hora dela.

Um sujeito sentado ao lado, menos inclinado à misericórdia, respondeu que a questão não era essa. Se a Justiça havia decidido, a decisão deveria ser cumprida. Não compreendia toda aquela comoção em torno de alguém que passara três décadas aguardando uma pena prevista pela lei.

Outro discordou. Não falou de justiça nem de religião. Disse que alguma coisa havia protegido aquela mulher. Chamem como quiserem: destino, sorte, providência ou mistério. O fato é que ela havia chegado ao encontro marcado com a morte e voltado de lá.

A conversa poderia ter permanecido nesse terreno, mas um advogado da mesa observou que o mais impressionante da história não era a execução fracassada.

Era a espera.

Trinta anos.

Não trinta dias, nem trinta meses.

Trinta anos.

Enquanto aquela mulher aguardava a execução, governos haviam sido eleitos e derrubados, crianças tinham nascido e se tornado adultas, amizades tinham surgido e desaparecido, cidades tinham mudado de fisionomia. Trinta anos atrás, alguns de nós ainda acreditávamos que o mundo seria muito diferente do que é.

A discussão passou a ser sobre a convivência prolongada com um destino conhecido.

Todos nós sabemos que vamos morrer. A diferença é que essa certeza vem acompanhada de uma ignorância misericordiosa. Não sabemos quando. É essa ignorância que nos permite fazer planos para o próximo verão, comprar livros que nunca são lidos e marcar encontros para daqui a seis meses.

Vivemos porque desconhecemos a data.

Aquela mulher, porém, passou três décadas com a morte sentada no mesmo cela, visível, imóvel, esperando.

Foi então que alguém observou que talvez ela tivesse se acostumado.

- Ninguém se acostuma, um retrucou.

- O ser humano acaba se acostumando a tudo, outro retrucou. 

E a conversa seguiu por esse caminho, não mais discutindo a americana, mas a nós mesmos. No fundo cada um falava sobre a própria maneira de encarar a finitude. O religioso via a vontade de Deus. O legalista via a força da sentença. O supersticioso via um sinal. O advogado via o peso insuportável do tempo.

E eu me perguntava o que sentiria uma pessoa que passou trinta anos esperando um único momento e descobriu, quando ele finalmente chegou, que a vida ainda tinha mais algumacoisa para lhe oferecer.

Quando o sol começou a desaparecer atrás dos prédios do Centro, o assunto foi cedendo espaço aos temas habituais. Futebol, política, contas, eleições, velhos amores e velhos desafetos retomaram seus lugares naturais numa mesa de bar.

Mas a história cnão me saiu da cabeça. Passamos a maior parte do tempo tentando esquecer a indigitada. Aquela mulher viveu durante décadas apenas esperando pela pena que a levara até ali. Nós não temos essa informação. Nenhum de nós sabe qual conversa será a última, qual abraço será o último ou qual mesa de sexta-feira será a derradeira.

Olhei para o copo gelado diante de mim e pensei que talvez a vida seja justamente isso: desfrutar o que está servido sem saber quanto tempo resta para pedir outra rodada.

Esse desconhecimento é que torna a cerveja mais gelada, a conversa mais valiosa e a tarde de sexta-feira uma das melhores invenções da humanidade.

Por via das dúvidas pedi

- Traz outra daquela estupidamente.


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