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Atrasos em usinas solares expõem gargalos no setor elétrico

A expansão da energia solar no Brasil, considerada estratégica para a transição energética, começa a revelar problemas de coordenação no setor elétrico. Levantamento da Folha de S.Paulo, com base em dados da Agência Nacional de Energia Elétrica, aponta que 327 projetos de usinas fotovoltaicas estão com cronogramas comprometidos e não devem entrar em operação no prazo previsto, o que acende um alerta sobre a capacidade de expansão organizada da matriz.

Esses empreendimentos somam 14,86 gigawatts de capacidade instalada, volume equivalente a 23% de toda a geração solar atualmente em funcionamento no país e cerca de 7% da capacidade total de produção de energia elétrica. A maior parte foi autorizada em 2022 e deveria iniciar operação entre 2025 e 2026, mas enfrenta entraves que vão de dificuldades financeiras a limitações na infraestrutura de transmissão.

Do total de projetos com atraso, 141 estão em situação mais crítica, incluindo casos em que as obras sequer começaram. Esse grupo reúne 6,36 gigawatts e tem baixa probabilidade de cumprir os prazos. Outros 186 empreendimentos, que somam 8,50 gigawatts, ainda podem ser viabilizados, embora também enfrentem incertezas. Um dos exemplos é o complexo Walfrido Ávila, em Minas Gerais, com cerca de 40 usinas e capacidade próxima de 2 gigawatts, que segue sem obras iniciadas.

Segundo a empresa responsável, o empreendimento estava atrelado a um projeto de hidrogênio verde no Piauí, que não avançou. A alternativa em análise é redirecionar a energia para abastecer data centers, com demanda menor do que a originalmente prevista, o que ilustra como mudanças de mercado têm afetado diretamente o planejamento desses projetos.

Esse cenário nacional se reflete no Rio Grande do Norte, um dos principais polos de energia renovável do país. O estado combina crescimento acelerado da geração distribuída com dificuldades crescentes na implantação de grandes usinas. Hoje, já são mais de 122 mil sistemas solares conectados à rede, com potência superior a 1 gigawatt, concentrados principalmente em residências, o que amplia a pressão sobre a infraestrutura elétrica existente.

Ao mesmo tempo, projetos de maior porte enfrentam perda de viabilidade. Nos últimos meses, houve devolução de outorgas que somam cerca de 2,8 gigawatts no estado, indicando que parte dos empreendimentos autorizados não conseguiu avançar. Entre os fatores apontados estão limitações no escoamento da energia, cortes forçados de geração, juros elevados e redução na demanda por contratos de longo prazo no mercado livre.

A Aneel informou que projetos em atraso estão sujeitos a penalidades, incluindo multas e até a revogação das autorizações. Em janeiro, 509 outorgas de usinas solares e eólicas foram canceladas no país, a pedido dos próprios empreendedores. No caso do Rio Grande do Norte, a forte presença da energia eólica amplia a pressão sobre a rede de transmissão, que precisa absorver volumes crescentes de diferentes fontes, em um cenário que exige ajustes no planejamento e novos investimentos em infraestrutura.


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