No feriado passado, dia de Nossa Senhora Aparecida, vi uma família puxando uma rede na praia em São Miguel do Gostoso. A maré estava começando a subir, eles já estavam a algum tempo pescado. Um homem mais velho comandava a operação, enquanto outros ajudavam a trazer a rede para a areia. Soube que era o avô porque ouvi um dos meninos chamá-lo assim. A mulher que estava por perto devia ser a avó. Os demais, imagino, eram filhos e netos. Os menores brincavam na areia, ainda sem força para o trabalho dos adultos.
A rede avançava devagar, metro a metro, até revelar o resultado da pescaria. Vieram alguns camarões, siris e peixinhos. Nada que impressionasse pelo tamanho ou pela quantidade. Os camarões eram pequenos, bem diferentes daqueles graúdos que encontramos nos viveiros e nos supermercados. Dizem que os pescados no mar têm outro sabor. Não sei se é verdade ou se há também um pouco de poesia nessa preferência. O fato é que estavam ali, na areia, à espera de um destino que podia ser o almoço da família ou alguns trocados para ajudar nas despesas da casa.
Fiquei olhando para o homem e me perguntando quanto conhecimento era necessário para fazer aquilo. Eles entraram no mar novamente para puxar novamente sua rede. Ele sabia quando jogar a rede, como distribuí-la na água, em direção puxá-la, em que momento começar a puxá-la e como calcular a força para trazê-la à praia. Conhecia os movimentos da maré, os lugares onde os peixes costumam aparecer e aqueles em que não vale a pena insistir. Talvez soubesse até antecipar o resultado de uma pescaria pelo comportamento da água.
Eu, que estudei, leio, escrevo, procuro me informar sobre o que acontece no mundo, não sei fazer nada disso. Posso explicar o fenômeno das marés, falar da influência da Lua, consultar uma previsão meteorológica e encontrar na internet estudos sobre os estoques pesqueiros. Mas, se me entregarem aquela rede e me mandarem entrar no mar, corro o risco de voltar com ela vazia. Se voltar.
A diferença é que o meu conhecimento está nos livros, nos jornais, nas pesquisas que leio. O dele está na cabeça, nos braços e na experiência acumulada séculos. Muito antes dele, pescadores já puxavam suas redes no Mar da Galileia e acabaram recrutados para pescarem almas, mesmo sem saber ler ou escrever. É uma ciência que passa de geração em geração há milênios. Exije observação, memória, capacidade de reconhecer padrões e aprender com os erros. Uma ciência popular cujo laboratório é o próprio mar.
Ariano Suassuna, embora não saiba se era mesmo dele, costumava contar em suas palestras a história de algumas estudantes universitárias que nos anos 50 do século passado teriam ido ao sertão para fazer uma pesquisa e encontraram um homem pescando à beira de um rio. Começaram a lhe fazer perguntas. Se sabia quem era o presidente da República. Não sabia. E o governador? Também não. O prefeito da cidade? Esse ele conhecia, era o Zezinha de Tião Bento, ou algo parecido.
As moças riram por ele não saber nada daquilo. Afinal, tinham encontrado um homem que desconhecia coisas que elas consideravam fundamentais para compreender o mundo.
O pescador, então, pediu licença para fazer algumas perguntas também. Mostrou um peixe e quis saber se elas conheciam a espécie. Não conheciam. Perguntou como prepará-lo. Também não sabiam. Por fim, apontou para uma cobra e perguntou se saberiam retirar o veneno dela. As estudantes se assustaram. Claro que não.
Foi quando o homem encerrou a conversa:
- Pois é dona, cada qual com sua ingnorância!
As estudantes sabiam coisas que o pescador desconhecia. Ele sabia coisas que elas jamais haviam aprendido. Nenhum dos dois grupos dominava sozinho o conhecimento necessário para compreender todas as situações da vida.
Voltei a pensar naquela família na praia. O avô puxava a rede, os adultos ajudavam e os meninos brincavam. O conhecimento estava ali na minha frente, sendo repassado de pai para filho, para neto. Os mais novos estavam aprendendo. Um dia, algum deles poderá estar no lugar do avô, ensinando a outro menino o momento certo de jogar a rede e a força necessária para trazê-la de volta.
Não sei se os netos vão seguir a profissão. Nem sei se a pesca será suficiente para sustentar aquela família nos próximos anos. O que sei é que, enquanto eu observava a cena, havia ali um conhecimento que não estava ao meu alcance.
A rede chegou à areia. Os camarões, os siris e os peixes pequenos foram separados. A maré continuou subindo até o ponto que o avô mandou recolher a rede, indiferente à meus pensamentos sobre o mundo e o pouco que sabemos dele
Fiquei com vontade de fazer uma pergunta ao avô. Queria saber como ele reconhecia o lugar certo para jogar a rede.
Mas tive vergonha de perguntar. Não por medo de parecer ignorante. Isso eu já sabia que era.