cabo verde.jfif

Na Copa de 26, camisa não ganha jogo

A primeira semana da Copa do Mundo de 2026 está mostrando que o futebol mundial mudou. Os resultados que chamaram atenção não foram exatamente as vitórias dos favoritos, mas a capacidade de seleções consideradas secundárias de competir em igualdade de condições com algumas das maiores potências do esporte.

O Brasil empatou com o Marrocos. A Espanha não conseguiu vencer Cabo Verde. A Bélgica ficou no empate com o Egito. O Uruguai também tropeçou diante da Arábia Saudita. O Haiti perdeu para a Escócia por apenas 1 a 0 e mostrou organização durante boa parte da partida. A única exceção foi a goleada da Alemanha por 7 a 1 sobre Curaçao.

Os resultados refletem uma transformação profunda. O futebol deixou de ser um jogo definido apenas pelo talento individual e passou a depender cada vez mais de organização tática, preparação física, análise de desempenho e métodos científicos de treinamento. Nesse ambiente, as diferenças entre países ricos e pobres diminuíram.

A globalização também mudou a formação das seleções. Hoje, muitos dos atletas que defendem países africanos, caribenhos e árabes foram formados em centros de treinamento da Europa. Em vários casos, nasceram fora dos países que representam.

O Marrocos é um dos exemplos mais conhecidos. Dos 26 jogadores convocados para esta Copa, 19 nasceram fora do país, principalmente na França, Bélgica, Holanda, Espanha e Itália. A equipe que arrancou um empate do Brasil é resultado direto de décadas de imigração marroquina para a Europa.

Cabo Verde segue caminho semelhante. A pequena nação africana possui uma diáspora muito maior que sua população residente. Grande parte dos atletas da seleção nasceu em Portugal, Holanda, França, Luxemburgo e outros países europeus. O empate sem gols contra a Espanha mostrou o resultado desse processo.

O Haiti apresenta uma situação parecida. Apenas um jogador do elenco atua no futebol haitiano. A maioria foi formada na França, nos Estados Unidos ou no Canadá. O país caribenho levou para a Copa uma seleção construída em grande parte fora de suas fronteiras.

O fenômeno não está restrito aos chamados azarões. As grandes seleções europeias também são fruto dos movimentos migratórios das últimas décadas.

A Suíça oferece um retrato dessa nova realidade. Nomes como Breel Embolo, nascido em Camarões, Manuel Akanji, filho de nigeriano, e Denis Zakaria, de origem congolesa, mostram como a imigração ajudou a moldar o futebol europeu contemporâneo.

A França talvez seja o exemplo mais evidente. O astro Kylian Mbappé é filho de um camaronês e de uma argelina. Ousmane Dembélé tem origem malinesa e mauritana. N'Golo Kanté é filho de imigrantes do Mali. A lista inclui ainda jogadores com raízes no Congo, Senegal, Argélia, Guiné e outros países africanos.

A Bélgica teve em Romelu Lukaku, filho de congoleses, um dos símbolos de sua geração mais vitoriosa. Na Alemanha, Antonio Rüdiger tem origem em Serra Leoa, Leroy Sané é filho de um ex-jogador senegalês e Jamal Musiala possui ascendência nigeriana.

A própria Espanha, que não conseguiu superar Cabo Verde, tem em Lamine Yamal sua principal estrela. Nascido na Espanha, ele é filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial.

Os Estados Unidos também simbolizam essa nova realidade do futebol globalizado. Dos 26 jogadores convocados para a Copa, seis nasceram fora do país e 13 possuem dupla nacionalidade. O elenco reúne atletas com raízes familiares em países como Nigéria, Libéria, México, Alemanha, Holanda, Inglaterra e Suriname. Entre os destaques estão o atacante Folarin Balogun, filho de nigerianos e criado na Inglaterra, Tim Weah, filho do ex-presidente liberiano George Weah, Sergiño Dest, nascido na Holanda e descendente de surinameses, além de Ricardo Pepi e Alejandro Zendejas, ligados à comunidade mexicana. O resultado é uma seleção que reflete a própria composição da sociedade americana, formada por sucessivas ondas migratórias e capaz de reunir talentos desenvolvidos em diferentes escolas de futebol ao redor do mundo.

Nem mesmo o Japão escapa completamente dessa nova realidade. Embora a seleção japonesa continue sendo uma das mais identificadas com um projeto nacional de formação, seu goleiro titular, Zion Suzuki, nasceu nos Estados Unidos, é filho de pai ganês e mãe japonesa e atua no futebol europeu.

América do Sul 

Na América do Sul, o cenário é diferente. Brasil, Uruguai, Colômbia e Paraguai continuam formando suas seleções quase exclusivamente com jogadores nascidos em seus próprios territórios. A Argentina é uma das poucas exceções entre as grandes equipes da região, com casos como o de Alejandro Garnacho, nascido na Espanha e convocado para defender o país de origem de sua família. Ainda assim, a característica predominante das seleções sul-americanas continua sendo a forte identificação nacional de seus elencos. Isso não significa, porém, que estejam fora da globalização do futebol. Quase todos os seus principais jogadores atuam na Europa, convivem diariamente com atletas de diversas nacionalidades e são treinados dentro dos mesmos modelos táticos e científicos utilizados pelos grandes clubes do continente.

Por isso, os empates de Marrocos, Egito, Cabo Verde e Arábia Saudita não devem ser vistos como meras zebras. Eles refletem um cenário em que o talento circula pelo mundo, os métodos de treinamento são compartilhados e as diferenças diminuem a cada ciclo.

A camisa continua tendo peso. Mas, na Copa de 2026, ela já não parece suficiente para decidir um jogo antes de a bola rolar.


Notícias relacionadas

Mais lidas

Perfil

Foto de perfil de Heverton Freitas

Heverton de Freitas