Quando a Polícia Federal bateu à porta do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), nesta quinta-feira (18), com autorização do Supremo Tribunal Federal, a investigação sobre o Banco Master completou um desenho que chama atenção pela abrangência. Os documentos reunidos pelos investigadores mostram que o banqueiro Daniel Vorcaro construiu relações com representantes dos três principais centros de poder da Casa. De um lado, o líder do governo Lula. De outro, um dos chefes do Centrão e o filho do ex-presidente Bolsonaro e candidato à Presidência pela oposição bolsonarista.
Os documentos reunidos pela investigação até agora mostram como o Poder Econômico age nos bastidores da política para conseguir favores e decisões que podem render muito mais dinheiro para quem já tem muito mais do que consegue gastar. O controlador do Banco Master não concentrou sua aproximação em um partido ou em um grupo político. Enquanto o país vivia a polarização entre lulistas e bolsonaristas, Vorcaro mantinha interlocução privilegiada com três dos senadores mais influentes de Brasília. De um lado, Jaques Wagner, líder do governo Lula. De outro, Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e um dos principais líderes do Centrão e pela direita aparece o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente e uma das principais lideranças da oposição.
Mais do que a diversidade partidária, a Polícia Federal chama atenção para a forma como essas relações eram cultivadas. Os investigadores apontam um padrão baseado na concessão de vantagens que variavam conforme o interlocutor, mas tinham um objetivo comum. Manter acesso permanente a parlamentares capazes de influenciar decisões estratégicas para os interesses do Banco Master.
Entre os alvos da investigação está o senador petista Jaques Wagner. De acordo com a Polícia Federal, ele teria recebido um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões, além de regalias como uso de aeronaves particulares e ingresso para camarote de um show em Los Angeles. Os investigadores também citam transferências de cerca de R$ 3 milhões para uma empresa ligada ao seu núcleo familiar.
No material reunido pela PF há ainda mensagens sobre a negociação do próprio imóvel, com referência direta ao valor e à unidade. Wagner afirmou que tratava de uma intenção de compra ligada a familiares e que a operação não tinha relação com o Banco Master. Ele também negou atuação em favor da instituição financeira no Congresso.
O relatório aponta ainda que o senador teria apresentado uma emenda relacionada ao crédito consignado, além de participar de discussões sobre mudanças no Fundo Garantidor de Créditos e sobre a tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília. Parte dessas iniciativas não foi aprovada pelo Congresso, mas foram citadas pelos investigadores como indicativo de interesse no tema.
Em outro eixo da investigação aparece o “amigo da vida toda” senador Ciro Nogueira. A PF descreve uma relação de longa duração com o banqueiro, marcada por viagens internacionais, uso de aeronaves particulares e tratativas envolvendo imóveis de alto padrão. O senador também é citado em discussões sobre a proposta que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, conhecida internamente como Emenda Master, que elevava o limite de proteção a investidores e impactava diretamente o modelo de captação do banco.
No caso de Flávio Bolsonaro, a investigação aponta uma relação de outra natureza. Segundo a PF, Vorcaro teria destinado cerca de R$ 61 milhões ao financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mensagens e registros reunidos pelos investigadores indicam tratativas para novos aportes no projeto e uma interlocução frequente entre o senador e o empresário durante o período de expansão do Banco Master. Flávio Bolsonaro confirmou que pediu dinheiro ao banqueiro, mas alega que a captação ocorreu de forma privada e regular, sem contrapartida política.
A investigação não trata os três casos de forma isolada. Para os investigadores, o elemento comum é a posição institucional dos envolvidos e o tipo de acesso que cada um deles representa dentro do Senado. Jaques Wagner ocupa a liderança do governo de Luiz Inácio Lula da Silva na Casa. Ciro Nogueira foi ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro e segue como uma das principais lideranças do Centrão. Flávio Bolsonaro é filho do ex-presidente e candidato da família à sucessão presidencial.
O foco do banqueiro era em parlamentares capazes de influenciar decisões sobre crédito, regulação financeira e operações envolvendo bancos médios, temas diretamente ligados ao interesse econômico da instituição, como mostram também viagens e regalias pagas ao presidente da Câmara Hugo Mota.
Nada de acarajé, cajuína ou biscoito Globo
As investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master apontam que o banqueiro Daniel Vorcaro passou a ser um financiador dedicado a fiel aos seus parceiros no Senado. Os políticos o procuravam como quem busca uma fonte de financiamento para bancar mordomias ou projetos particulares sem nenhum pudor de usar para isso aplicativos como o WhatsApp que deixam provas em qualquer celular. A relação era de normalidade e olha que ninguém estava pedindo para o banqueiro pagar um acarajé, uma cajuína ou um biscoito Globo na praia.
No caso de Jaques Wagner, a PF atribui o recebimento de vantagens econômicas que incluem um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões, uso de aeronave particular e ingressos para um show de Taylor Swift em Los Angeles para cinco pessoas que custaram a bagatela de R$ 63 mil. O relatório também menciona transferências financeiras para empresa vinculada ao núcleo familiar do senador e mensagens sobre a negociação do imóvel.
Em relação a Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil e uma das principais lideranças do Centrão, a investigação descreve uma aproximação dele com Vorcaro muito maior. Os dois eram parceiros em um circuito de viagens internacionais, hospedagens e deslocamentos em aeronaves privadas que custavam milhares de reais nos melhores hotéis, nas melhores festas e no consumo das bebidas mais caras do mundo custeados por pessoas ligadas a Vorcaro. Os registros citados pela PF envolvem estadias em cidades como Nova York e Lisboa, além de destinos europeus.
Já no caso de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a apuração trata da negociação de financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo os investigadores e o próprio Flávio Bolsonaro, os valores discutidos chegaram a R$ 134 milhões, com repasses já realizados na ordem de R$ 61 milhões. A Polícia Federal investiga o fluxo e a destinação desses recursos, através de fundos de investimentos nos EUA, inclusive possíveis vínculos com iniciativas ligadas ao entorno político da família Bolsonaro para averiguar se os pagamentos se destinavam a manutenção do ex-deputado Eduardo Bolsonaro que está morando nos states.
O conjunto das investigações sugere que Vorcaro não atuava como um doador de campanha. Ele era o manipulador de uma rede de influência de acesso permanente a parlamentares com capacidade de interferência em decisões de impacto direto sobre o sistema financeiro.
Roteiro de luxo custou R$ 41 milhões
A Polícia Federal identificou que o banqueiro Daniel Vorcaro gastou cerca de R$ 41 milhões em apenas três viagens internacionais realizadas entre 2024 e 2025, com deslocamentos para Nova York, Courchevel, nos Alpes franceses, e a ilha de St. Barths, no Caribe. Os registros reunidos pela investigação detalham uma rotina de alto padrão sustentada por uma empresa especializada em turismo de luxo sediada na Flórida, responsável por organizar hospedagens, eventos e deslocamentos do empresário.
As notas fiscais e mensagens apreendidas pela PF mostram despesas com hotéis cinco estrelas, suítes presidenciais, aluguel de iates, mansões à beira-mar, massagistas, fretamento de jatos e compra de artigos de luxo, incluindo bolsas Hermès entregues em Miami. Em Nova York, a fatura teria alcançado US$ 4,7 milhões, cerca de R$ 23 milhões, incluindo hospedagens múltiplas, dois voos em jatinhos, consumação em eventos privados e aluguel de uma mansão com 21 suítes para encontros e recepções.
Em uma das viagens, entre os convidados estavam o senador Ciro Nogueira e o então governador Cláudio Castro, em eventos privados organizados em Manhattan. Em outra etapa, na estação de esqui de Courchevel, na França, os gastos somaram cerca de US$ 2,1 milhões, com hospedagens de alto padrão, restaurantes e serviços personalizados, incluindo o registro de compra de bolsas de luxo.
Depois, já no Caribe, o empresário teria mantido o mesmo padrão de gastos, com aluguel de vila exclusiva com nove quartos, passeios de iate, contratação de artistas e despesas adicionais que somaram cerca de US$ 840 mil, o equivalente a R$ 5,2 milhões.