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Onde você estava no 11 de setembro?

Há dias que a gente não precisa consultar no calendário. Basta alguém perguntar onde você estava e a memória faz o resto. Onde você estava quando morreu Ayrton Senna? Onde estava quando Tancredo Neves morreu? Onde estava quando o Brasil ganhou a Copa de 1994? E onde você estava na manhã de 11 de setembro de 2001?

Eu estava trabalhando normalmente na Prefeitura de Natal. Como assessor de imprensa, acompanhava o rádio enquanto esperava uma reunião no gabinete da prefeita Wilma de Faria. Era uma manhã comum de trabalho, dessas que começam com uma agenda cheia e poucas razões para imaginar que, dali a algumas horas, o mundo estaria tentando entender o que havia acontecido em Nova York.

Foi pelo rádio que chegou a primeira notícia. Um avião havia atingido um prédio em Nova York. A informação ainda era vaga, como costumavam ser as primeiras notícias de um acontecimento grave. As agências estavam começando a divulgar o que sabiam e nós ainda não tínhamos uma imagem sequer para ajudar a entender a dimensão do acidente.

Liguei para alguns jornalistas para comentar o que tinha acabado de ouvir e saber se tinham mais alguma informação. Pouco depois veio a notícia de que outro avião havia atingido outro prédio. Foi aí que pensei que alguma coisa estava errada. Dois aviões atingindo dois prédios em Nova York parecia absurdo demais para ser verdade.

Hoje estamos acostumados a receber dezenas de versões de um acontecimento antes mesmo de saber exatamente o que ocorreu. Naquele tempo não havia redes sociais, WhatsApp ou celulares transformados em pequenas emissoras de televisão. Havia rádio, televisão, jornais, agências de notícias e as redações tentando confirmar as informações. Boatos existiam, naturalmente, mas ainda não havia a máquina de produção e distribuição instantânea de informações falsas que conhecemos hoje.

Quando a segunda colisão foi confirmada, a explicação começou a aparecer. Não era acidente. Era um ataque terrorista.

Alguns assessores, eu entre eles, entramos no gabinete da prefeita, onde havia uma televisão. Wilma chegou e também ficou acompanhando o noticiário. A reunião que estava marcada simplesmente deixou de fazer sentido. Ninguém precisava dizer que ela não aconteceria. Havia uma notícia grande demais ocupando aquela sala.

As imagens das torres em chamas começaram a dar forma àquilo que o rádio havia contado minutos antes. Depois veio a notícia de um avião que havia atingido o Pentágono, em Washington, e de outro que havia caído na Pensilvânia enquanto seguia em direção à capital americana. Naquele momento, não sabíamos que os passageiros do voo 93 haviam tentado retomar o controle da aeronave. Também não havia como saber se ainda existiam outros aviões sequestrados ou outros alvos.

O sentimento era de que o mundo havia parado.

A pergunta não era apenas quem tinha feito aquilo. Era o que aconteceria agora. Haveria outro ataque? Os Estados Unidos entrariam em guerra? Outros países seriam envolvidos? E, para quem estava em Natal, uma dúvida ainda mais distante começava a aparecer. O que aquilo significaria para o Brasil?

A paralisação dos voos americanos aumentou a sensação de insegurança. Pela primeira vez, todo o tráfego aéreo civil dos Estados Unidos foi interrompido. Aviões que estavam no ar foram desviados ou obrigados a pousar e os que estavam em solo não poderiam decolar. Para quem assistia à televisão, aquilo parecia mais um daqueles filmes catástrofe.

Depois vieram as consequências que hoje conhecemos. Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, derrubaram Saddam Hussein no Iraque e mataram Osama bin Laden no Paquistão, quase dez anos depois. As regras para viajar de avião mudaram. Os controles nos aeroportos ficaram mais rígidos. A guerra ao terrorismo consumiu trilhões de dólares e provocou centenas de milhares de mortes. E o resultado disso tudo? O Talibã voltou ao poder no Afeganistão e o Irã, o inimigo da vez dos EUA, ampliou sua influência no Oriente Médio depois da guerra do Iraque.

O mundo não terminou naquele dia. Mas mudou.

Mudou até uma coisa banal como viajar de avião. Antes, havia uma ideia de segurança que hoje parece ingênua. Depois do 11 de Setembro, tirar os sapatos, passar por detectores, retirar líquidos da bagagem, mostrar documentos e enfrentar filas de segurança passaram a fazer parte da rotina de quem embarca.

Hoje, quase 35% dos brasileiros têm menos de 25 anos. São pessoas que nasceram depois do 11 de Setembro. Elas conhecem as imagens das torres, sabem dos aviões, das guerras e de Osama bin Laden. Podem estudar tudo sobre aquele dia, ouvir os relatos dos pais e assistir aos documentários. Mas não viveram aquela manhã. E há uma diferença enorme entre saber o que aconteceu e ter estado lá.

Meus avós viveram a Segunda Guerra Mundial. Contavam histórias sobre o racionamento de alimentos, as sirenes nas ruas, os boatos de bombardeio e os toques de recolher. Eu ouvia tudo e conseguia imaginar aquelas cenas. Mas não vivi nada daquilo. Não sei o que era acordar com uma sirene, sair de casa sem saber se haveria comida suficiente ou ouvir uma ameaça de bombardeio sem saber se ela se transformaria em realidade. Posso compreender. Não posso lembrar.

Talvez alguma coisa parecida aconteça com quem nasceu depois do 11 de Setembro. A pandemia de Covid produziu em nossa geração uma sensação que ajuda a entender o que é viver diante de um acontecimento cujo desfecho ninguém conhece. De repente, a vida normal parou. Vieram as notícias, as dúvidas, as restrições, o medo e a pergunta que passou a fazer parte dos nossos dias. Quando isso vai acabar? Haverá um futuro depois disso?

No 11 de Setembro, ninguém sabia se haveria outro ataque, quantos aviões poderiam estar sequestrados ou o que aconteceria nas horas seguintes. Os aviões estavam em terra. As televisões repetiam as mesmas imagens. E nós, em Natal, diante daquela televisão no gabinete da prefeita, tentávamos entender o que estava acontecendo.

Vinte e cinco anos depois, sabemos o que aconteceu. Sabemos que o mundo continuou, que as guerras mudaram de lugar com os Estados Unidos tentando preservar sua posição de potência mundial.

Naquela manhã, em Natal, diante de uma televisão, nós ainda não sabíamos.

E você, onde estava naquele dia quando o futuro ficou sem resposta?

 


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