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Os jovens nas ruas rejuvenescem a gente

Tem uma coisa que me emocionou nas últimas semanas. Ver a grande quantidade de jovens tomando as ruas das grandes cidades, não só no Brasil, mas em boa parte do mundo. Cada qual com suas reivindicações, com seus objetivos, mas todos com um tema em comum, barrar o fascismo e a ascensão da extrema direita.

Claro que os quebra-quebra, saques, incêndios e ataques às forças policiais não são atos aplaudíveis. Mas a grande massa não participa disso. São na verdade, resistência a regimes que diminuem o bem-estar social, no caso dos Europeus, em virtude da escassez de recursos causada também pelos migrantes. Por sinal, o principal alvo da direita europeia que exige a volta da pureza racial que existia até há alguns anos.

No Brasil, os jovens também tomaram as ruas, praças e avenidas no segundo turno dessas eleições, mas de forma pacífica para manifestar sua preferência eleitoral e conseguiram uma virada histórica não para eleger um jovem como eles, mas para eleger um senhor de 80 anos que personificou em si mesmo o combatente pela democracia contra a ameaça dos que preferem as armas aos livros, a xenofobia ao convívio, e o preconceito ao respeito pelas escolhas de vida de cada um.

Foram cenas que me emocionaram porque me remetem a minha adolescência e até a minha infância. Não sei por que cargas d`água desde criança tive interesse na política, mesmo vivendo num período mais duro da ditadura. Minha primeira lembrança política vem de 1974. Eu era um menino distribuindo santinhos de Orestes Quércia na frente da escola do outro lado da rua da casa da minha avó, onde funcionava uma seção eleitoral. Não entendia direito quem eram aqueles candidatos nem o que significava fazer oposição à ditadura. Mas já existia uma simpatia instintiva por quem estava do outro lado do regime. Quércia, ex-prefeito de Campinas, era um dos candidatos do MDB contra a Arena, o partido do governo, e eu torcia por ele. Nem sei o porquê.

Anos depois, essa simpatia juvenil se decepcionaria com a figura marcada por escândalos de corrupção. Mas na época era um dos símbolos contra a ditadura. Acho que nunca gostei desse nome.

Mais tarde, já adolescente, participei das passeatas pela anistia, dos pedágios improvisados para arrecadar dinheiro para os metalúrgicos em greve no ABC e, já estudante de jornalismo na Cásper Líbero, das manifestações pelas Diretas Já. Guardo uma imagem que o tempo não apagou. O comício gigantesco na praça da Sé, depois, como único estudante universitário na fábrica onde trabalhava, mobilizei os colegas para irmos ao Anhangabaú pedir de volta o nosso direito de votar. Alguns, como eu, pela primeira vez para presidente. No dia da votação da emenda Dante de Oliveira, o general Figueiredo, avô desse golpista que está lá nos EUA articulando contra o Brasil, decretou estado de emergência e estavam proibidas manifestações públicas. Claro que nós estudantes não iríamos, no apogeu da nossa irresponsabilidade, aceitar isso e fomos para a Paulista pedir Diretas Já. Resultado foi um carreirão de policiais e seus cavalos que correram atrás da gente. Sorte que alguns mais experientes tinham levado alguns sacos de bolinha de gude que espalharam pelo asfalto da avenida fazendo os cavalos caírem uns sobre os outros.

A ditadura estava enfraquecida, mas ainda sabia mostrar os dentes.

Talvez seja por carregar essas lembranças que me emocionam as imagens dos jovens ocupando as ruas hoje.

Agora vejo manifestações na França, na Espanha, no Chile, na Argentina entre tantos outros países. São rapazes e moças que nasceram décadas depois do fim dos regimes militares latino-americanos. Não conheceram a censura, não precisaram medir palavras ao telefone nem aprenderam a desconfiar dos ouvidos do Estado. Ainda assim, entenderam que a democracia não é um patrimônio herdado para sempre. Ela exige vigilância, presença e disposição para ocupar as ruas.

No Brasil, muitos desses jovens se mobilizaram, transformaram indignação em conversa, conversa em mobilização e mobilização em voto. Em outros países, enfrentam desafios diferentes, mas movidos pela mesma percepção de que a política não pode ser abandonada aos profissionais da política.

Me alegra saber que a atual geração, ao contrário do que ouvimos durante anos, não se interessa só por telas, nem trocaram a praça pela tela

. Bastou uma ameaça real para que aparecessem nas ruas e desmentissem o diagnóstico.

É verdade que mudaram os instrumentos. Minha geração organizava reuniões por telefone, distribuía panfletos mimeografados e passava noites colando cartazes. Hoje uma mensagem pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos. Mas a essência continua a mesma. Há um momento em que nenhuma tecnologia substitui a experiência de descobrir que se está acompanhado. A política começa quando percebemos que a nossa inquietação é compartilhada por outros.

O que vejo nas ruas hoje não é uma repetição da minha geração. E ainda bem que não é. Cada época produz suas próprias linguagens, seus símbolos e suas batalhas. Os jovens de agora cometerão erros diferentes dos nossos e encontrarão caminhos que não compreendemos inteiramente. Mas a recusa em aceitar a injustiça permanece

Quando os vejo marchando, lembro daquele menino de 1974 distribuindo santinhos sem entender completamente o que estava em jogo. Lembro do estudante correndo diante da polícia montada na Avenida Paulista. Entre uma cena e outra havia um país tentando recuperar a democracia. Entre aquelas imagens e as de hoje existe a convicção de que a história não se move sozinha.

Os jovens voltaram às ruas para enfrentar o autoritarismo de seu tempo. E, ao vê-los caminhar, com a coragem de quem acredita que o futuro ainda pode ser disputado, descubro que uma parte de mim caminha ao lado deles.

A idade envelhece o corpo. Mas a esperança se renova quando encontra a companhia da juventude.

 

 


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