"Ou todos nos locupletamos ou restaure-se a moralidade". A frase popularizada pelo cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, a partir de uma anedota política que circulava desde a década de 1940 volta a fazer sentido diante do momento atual do Brasil. A frase nasceu de uma história sobre acordo político, interesses particulares e distribuição de vantagens e passou a ser usada como uma sátira ao comportamento da política brasileira. Décadas depois, ela parece ter encontrado um cenário apropriado para reaparece diante da crise que envolve o Supremo Tribunal Federal e suas relações com o caso Banco Master.
A cada dia surge um novo capítulo. Primeiro, as mensagens e os encontros atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes colocaram o STF sob forte pressão. Relatório da Polícia Federal aponta uma relação próxima entre os dois e registra mensagens nas quais Vorcaro buscava informações e ajuda diante do avanço das investigações. Em uma delas, chegou a consultar o interlocutor sobre a possibilidade de deixar o país.
As mensagens de Whatsapp que o ministro Mendonça tornou públicas, também envolveriam o Procurador Geral da República, Paulo Gonet, convidado para um regabofe em Londres que acabou sendo cancelado diante da prisão do banqueiro.
Agora é a vez de André Mendonça, justamente o ministro que retirou o sigilo de parte desse material e levou ao debate público as relações de Vorcaro com Moraes. Mendonça confirmou que recebeu o banqueiro em março de 2025, em seu instituto, para tratar de uma ação sobre créditos de precatórios que interessavam ao Banco Master. Segundo o ministro, o encontro ocorreu por iniciativa de Vorcaro e ele apenas ouviu o empresário. Mas logo sobre precatórios, um dos esquemas usados pelo banqueiro para desviar recursos públicos?
Também veio à tona que o ministro Mendonça estava com um advogado ligado a Vorcaro num dos alfaiates mais caros do Brasil. O mesmo Vorcaro que agora se sabe prestou depoimento ao gabinete de Mendonça na semana passada, sem a presença da Polícia Federal.
As suspeitas e as ilações que surgem a partir dessas conversas mostram até que ponto iam os tentáculos do banqueiro com ligações no Executivo, Legislativo e Judiciário e alimentam a discussão sobre os limites das relações entre ministros da mais alta Corte do país e pessoas diretamente interessadas em processos submetidos ao tribunal.
Alexandre de Moraes, relator do processo que resultou na prisão de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado, se tornou o principal alvo dos bolsonaristas, que enxergam nas revelações uma oportunidade para questionar sua atuação. Já existem mais de 100 pedidos de impeachment do ministro no Senado sobre os quais o presidente David Alcolumbre está devidamente sentado. Mendonça, por sua vez, passou a ser questionado por setores ligados ao governo Lula, que apontam possível seletividade na condução do caso.
Há ainda um terceiro problema. A investigação envolvendo o filme "Dark Horse", para a execução do qual o senador e candidato a Presidente Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro, permanece sob sigilo. Parlamentares governistas já pediram ao presidente do STF, Edson Fachin, a retirada desse sigilo e questionam por que esse episódio não recebe o mesmo tratamento dado às informações envolvendo Moraes.
Cada lado passa a enxergar a irregularidade do adversário e a relativizar a do aliado e o STF se vê envolvido na disputa eleitoral como nunca antes nesse país.
O Supremo não deveria permitir que relações pessoais, encontros privados e negócios envolvendo pessoas próximas a ministros produzam dúvidas sobre a imparcialidade da Corte.
Stanislaw Ponte Preta provavelmente não imaginaria que a frase que popularizou pudesse ser aplicada, tantos anos depois, à mais alta Corte da Justiça brasileira. Mas bem que a escolha parece atual: “Ou todos nos locupletamos ou restaure-se a moralidade”.