Entre os muitos discursos e embates políticos que marcaram a Assembleia Geral da ONU nesta semana, um deles chamou atenção pela objetividade e pela urgência da mensagem. O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, transformou a tragédia climática vivida por seu país em um alerta global.
Ao discursar na tribuna das Nações Unidas, Shah lembrou o desastre que há um mês matou cerca de 1.400 pessoas e deixou milhares de desaparecidos após o colapso de uma geleira na região do Himalaia. O premiê destacou um aspecto que considera fundamental: o desastre atingiu Nepal, China e Índia, mostrando que as mudanças climáticas não respeitam fronteiras e não podem ser tratadas como um problema local.
O dirigente nepalês também ressaltou uma contradição frequentemente apontada por países vulneráveis aos efeitos do aquecimento global. O Nepal responde por menos de 0,1% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, mas está entre as nações que mais sofrem as consequências dos eventos climáticos extremos.
Em vez de buscar culpados imediatos, Shah defendeu o princípio da responsabilidade compartilhada, mas afirmou que os países historicamente mais responsáveis pelas emissões precisam fazer mais para enfrentar a crise. Segundo ele, reconstrução, responsabilização e resiliência devem caminhar juntas.
A fala ganhou relevância por ocorrer em um momento em que o debate ambiental parece perder espaço em diversas partes do mundo. No Brasil, por exemplo, a questão climática teve presença limitada no debate eleitoral, apesar da sucessão de eventos extremos registrados nos últimos anos.
Nesse cenário, o que pode ser observado são as ações efetivas dos governos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido o protagonismo brasileiro nas negociações internacionais sobre clima, a ampliação de compromissos ambientais e a cooperação global para redução das emissões.
Já em entrevista ao Jornal Nacional, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, afirmou que ondas de calor, secas e chuvas intensas fazem parte de ciclos naturais do planeta. A avaliação se aproxima do discurso adotado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que frequentemente minimiza a influência humana no aquecimento global e rejeita iniciativas multilaterais mais amplas para reduzir emissões de gases poluentes.
O discurso de Balendra Shah não trouxe argumentos inéditos, mas levou a discussão par aa ONU de uma realidade incômoda: os países que menos contribuíram para a crise climática estão entre os que pagam o preço mais alto. Ao lembrar que geleiras, enchentes e secas não carregam passaporte, o premiê do Nepal fez um apelo para que a questão ambiental deixe de ser tratada como pauta setorial e passe a ser encarada como um desafio comum da humanidade.