Susan Young Browne, 108 anos, acaba de renovar sua carteira de motorista por mais sete anos e agora está oficialmente autorizada a dirigir até 2033. Nos Estados Unidos, o direito de dirigir é quase tão sagrado quanto a liberdade de expressão costumava ser até um certo presidente personalista resolver que ninguém pode dizer que o rei está nu.
Mas o que interessa é que a renovação da habilitação, como não poderia deixar de ser, levantou polêmica. Até que idade será permitido dirigir sem colocar em risco a própria vida e dos outros motoristas?
Para os jovens a primeira carteira costuma representar a liberdade. Para os adultos, necessidade. Para os idosos é quase uma declaração de independência. Enquanto para alguns filhos aflitos, um motivo diário de vigilância e preocupação.
Pois Susan, se continuar tudo bem, poderá chegar aos 115 anos estacionando o carro sozinha no supermercado enquanto gente de 40 ainda se perde na vaga do shopping.
Susan nasceu em 1918. Quando veio ao mundo, a gripe espanhola ainda rondava o planeta, o rádio era novidade e muita gente no Brasil andava de carroça. Ela atravessou segregação racial, guerras mundiais, crises econômicas, a chegada da televisão, da internet e agora do carro elétrico. E segue dirigindo.
Existe um temor quase automático quando se fala em idosos ao volante. A imagem mental vem pronta. Reflexos lentos, dificuldade para enxergar, insegurança nas decisões. O problema é que a realidade nem sempre respeita os estereótipos. Há motoristas de idade avançada extremamente prudentes e atentos, assim como há jovens capazes de transformar qualquer avenida em pista de videogame.
Susan é uma realidade fora da curva é bem verdade. Ela não apenas dirige. Faz exercícios três vezes por semana, participa de aulas coletivas de ginástica e mantém uma rotina física diária. Em outras palavras, provavelmente está em melhor forma do que boa parte da população que reclama das dores nas costas antes mesmo dos 50 anos.
Claro que ninguém defende que idade deva ser ignorada. O trânsito exige capacidade física e mental. Reflexos importam. Visão importa. Atenção importa. O problema não está na data de nascimento, mas sim na honestidade com que cada motorista encara suas próprias limitações.
O trânsito brasileiro, convenhamos, já mostrou há muito tempo que imprudência não escolhe faixa etária. Ela aparece no rapaz que digita mensagens enquanto dirige, no motorista que acha seta um acessório opcional e naquele cidadão que transforma qualquer chuva em justificativa para dirigir como se estivesse fugindo de um filme de ação.
A história dessa senhora de 108 anos não chama a atenção pela carteira de motorista renovada até 2033 nem pelos exercícios que faz todas as semanas, mas pela recusa em entregar as chaves.
Porque envelhecer não significa necessariamente passar para o banco do passageiro. Enquanto muita gente mais jovem vive deixando que os medos, as inseguranças ou as opiniões alheias decidam seus rumos, ela segue escolhendo o próprio caminho.
Há algo quase poético nisso. Uma mulher nascida no tempo em que ainda se portava luvas no porta-luvas ainda segurando o volante mais de um século depois. Como se dissesse ao tempo, com elegância, que ele pode até avançar, mas não precisa estacionar a vida de ninguém.
Aos 108 anos, Susan continua dirigindo a própria vida.