Os anúncios feitos nos últimos dias no Ceará e no Rio Grande do Norte mostram que os dois estados apostam na energia como vetor de desenvolvimento econômico. A diferença está no estágio de maturidade dos projetos.
No Ceará, a Eneva e a Diamante lançaram a pedra fundamental de um complexo termelétrico de 1,2 GW no Porto do Pecém, acompanhado de um novo terminal de gás natural. Com investimentos estimados em cerca de R$ 6 bilhões, o empreendimento já possui contrato obtido em leilão federal, cronograma definido e previsão de entrada em operação até 2029. As obras começam agora e devem gerar mais de dois mil empregos durante a implantação.
No Rio Grande do Norte, o Governo do Estado autorizou o BNDES a iniciar a estruturação da parceria público-privada do Porto-Indústria Verde de Caiçara do Norte, empreendimento estimado em R$ 6,8 bilhões e concebido para atender atividades ligadas ao hidrogênio verde, eólicas offshore, mineração e logística portuária.
Embora os valores sejam semelhantes, a distância entre os dois projetos é significativa. O complexo cearense entra na fase de construção física, enquanto o porto potiguar inicia uma etapa de estudos que deverá se estender até 2027. Somente após a conclusão da modelagem econômica, jurídica e ambiental será possível lançar a licitação para escolha do parceiro privado responsável pelos investimentos.
Na prática, isso significa que a contratação da PPP e o início efetivo das obras deverão ocorrer já sob a gestão do próximo governador do Rio Grande do Norte. O cronograma oficial prevê a conclusão da modelagem em março de 2027 e o início da execução apenas no final daquele ano.
O contraste evidencia uma diferença que vem sendo observada há alguns anos na região. Enquanto o Ceará tem conseguido transformar projetos estratégicos em investimentos contratados e canteiros de obras, o Rio Grande do Norte ainda enfrenta o desafio de converter seu enorme potencial energético em empreendimentos estruturantes efetivamente implantados.
O Porto-Indústria Verde não é um projeto novo. A iniciativa vem sendo apresentada pela governadora Fátima Bezerra desde o primeiro mandato como uma das principais apostas para inserir o estado na nova economia da transição energética. Ao longo dos últimos anos, foram realizados estudos de viabilidade, licenciamento prévio e articulações com o governo federal e investidores. Agora, o projeto avança para uma etapa considerada decisiva, mas ainda distante da execução física.
A comparação ganha relevância porque os dois empreendimentos estão conectados à mesma agenda econômica. Tanto o Pecém quanto Caiçara do Norte buscam ocupar posições estratégicas na cadeia do gás natural, do hidrogênio verde e da indústria associada às energias renováveis. A diferença é que o Ceará já começa a colher resultados concretos de uma política de infraestrutura desenvolvida ao longo de décadas, enquanto o Rio Grande do Norte ainda trabalha para transformar planejamento em obras.
Se o cronograma for cumprido, o Porto-Indústria Verde poderá se tornar um dos maiores investimentos da história do estado. Mas, por enquanto, a principal entrega do atual governo é a estruturação do modelo que permitirá ao próximo governador tentar tirar o empreendimento do papel.