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O homem que recebeu oito vezes a última refeição

Ninguém sobrevive a oito refeições derradeiras sem desenvolver uma relação muito peculiar com a morte. Pense comigo. Para a maioria das pessoas, a morte é uma visita inesperada que bate à porta numa terça-feira qualquer. Para Francis Clifford Smith, ela virou um compromisso recorrente. A cadeira elétrica estava preparada, o capelão provavelmente ensaiava mais uma vez suas palavras de despedida, a última refeição chegava e, quando o garfo estava prestes a encontrar o prato, aparecia a notícia de que a execução fora suspensa. Era como marcar oito vezes um encontro com a morte e, nas oito, ela mandar avisar que não poderia comparecer.

O mais estranho é que isso aconteceu de verdade. Smith foi condenado por assassinato em 1950, quando tinha 25 anos, e passou mais de 70 anos preso nos Estados Unidos. Sempre afirmou que era inocente. Com o tempo, apareceram testemunhas que mudaram seus depoimentos, um policial que participou da investigação disse não ter certeza de que Smith estivesse no local do crime e outro preso acabou confessando o assassinato. A pena de morte foi finalmente transformada em prisão perpétua, mas a dúvida ficou.

Será que ele matou mesmo? Será que era inocente? Nunca saberemos. A Justiça decidiu que era culpado, mas a própria história foi acumulando dúvidas suficientes para impedir que a resposta parecesse tão simples.

Também não sabemos o que significariam 70 anos de liberdade para alguém que entrou na prisão aos 25. Aos 90, 95 ou 100 anos, quem estaria esperando por ele? Haveria uma casa para onde voltar, uma família, algum amigo que ainda guardasse a lembrança daquele rapaz, agora um velho ancião? Depois de tanto tempo, provavelmente a prisão fosse o único endereço que lhe restava.

Não necessariamente as grades de uma penitenciária. No fim da vida, Smith foi levado para uma instituição de cuidados para idosos. Não voltou exatamente para a liberdade que se imagina quando se fala em liberdade. Voltou para uma cama, para enfermeiros e para uma rotina de cuidados. Tinha 101 anos e precisava de ajuda para viver.

Mas havia uma coisa que ele fazia na prisão e na casa de repouso por anos e anos. Ele alimentava os pássaros. Escondia pedaços de pão nas roupas e levava para eles. Os funcionários sabiam e fingiam não perceber. Foi assim que ganhou o apelido de Homem-Pássaro.

É difícil não pensar na vida diante de uma notícia como essa. Um homem que passou sete décadas sendo chamado de preso, que recebeu oito vezes a notícia de que iria morrer, passou parte desse tempo preocupado em levar pão para os pássaros.

A história verdadeira tem essa ironia peculiar. Francis não era feito de amargura.  Era feito de pão velho. Quando os carcereiros olhavam para o outro lado, fingindo cegueira diante daquela silhueta curvada que entupia os bolsos de miolo de pão para os pardais da penitenciária, eles sabiam que um homem que alimenta pássaros atrás das grades ainda guarda um pedaço de céu na alma.

E assim os anos passaram. Veio a fuga de doze dias — ah, doze dias de vento no rosto, que valeram mais do que décadas de tédio. Veio a velhice, essa outra prisão sem grades, onde o corpo decreta a própria falência e a mente começa a misturar o som dos pardais com o eco distante dos tiros na noite de Connecticut.

Até que a morte, cansada de ser desmarcada, apareceu na ponta dos pés, numa noite de junho, enquanto ele dormia na casa de repouso. Sem última refeição, sem prece derradeira.

Não morreu executado. Morreu dormindo. Aos 101 anos. Depois de esperar tantas vezes pela morte, ela simplesmente chegou enquanto ele dormia.

Sem tribunal.

Sem sentença.

Sem última refeição.

Só o tempo, que finalmente terminou o trabalho, enquanto um pardal solitário lá fora bicava o vazio, como quem espera pelo próximo milagre.

 


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