Embora a eleição presidencial concentre as atenções do eleitorado, os partidos têm direcionado cada vez mais recursos para a disputa da Câmara dos Deputados. Levantamento do professor da Fundação Dom Cabral, Bruno Carazza, mostra que a fatia dos investimentos destinada às campanhas para deputado federal passou de 28,1% em 2002 para 52,5% em 2022. A análise foi publicada em artigo no Valor Econômico e aponta que a formação de grandes bancadas no Congresso se tornou prioridade para as legendas.
A estratégia explica os poucos candidatos a presidência este ano e a dificuldade de formação de coligações. Na semana passada, partidos do chamado Centrão evitaram formalizar apoio à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL). Republicanos, União Brasil e Progressistas não enviaram seus presidentes nacionais ao lançamento da candidatura e mantiveram o discurso de neutralidade para preservar liberdade nas negociações estaduais.
No campo da esquerda, o cenário caminha na direção oposta. A tendência é de concentração em torno de uma única candidatura presidencial, reduzindo a pulverização de nomes e permitindo que partidos como PSB, PDT, Rede e PSOL concentrem esforços nas disputas eleitorais proporcionais.
Segundo Carazza, a prioridade dada à Câmara decorre de mudanças introduzidas pela reforma política de 2017. O fim das coligações proporcionais e a criação da cláusula de desempenho fizeram da eleição de deputados federais um requisito para a sobrevivência de muitas legendas. Para continuar tendo acesso ao fundo partidário e ao horário gratuito de rádio e televisão, os partidos precisam atingir desempenho mínimo nacional ou eleger uma bancada mínima de deputados federais.
Os números mostram que essa mudança alterou o comportamento das siglas. Entre 2002 e 2022, o número de candidatos a deputado federal passou de 4.207 para 9.970, alta de 137%. O crescimento foi bem superior ao registrado nas disputas para deputado estadual e distrital no mesmo período.
Mesmo após a legislação reduzir, em 2021, o número máximo de candidatos que cada partido pode lançar para a Câmara, a prioridade permaneceu. Na avaliação apresentada pelo professor, o objetivo passou a envolver diretamente a capacidade de angariar mais recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral. Quanto maior a bancada, maior a participação do partido na divisão desses recursos ao longo da legislatura seguinte.
Além disso, uma bancada numerosa amplia a influência sobre a execução do Orçamento da União. Os deputados federais controlam bilhões de reais em emendas parlamentares, instrumento que fortalece sua atuação política e aumenta seu peso nas negociações entre Congresso e governo.
Na avaliação de Carazza, forma-se um ciclo em que o desempenho eleitoral para a Câmara garante mais recursos públicos aos partidos, permitindo investimentos ainda maiores nas eleições seguintes e reforçando a importância estratégica da disputa legislativa em relação às demais eleições proporcionais.